domingo, julho 18, 2010

Cultura não é educação (Apresentação do grupo EKE no CCSP)

Sem dúvida, o saxofonista Yedo Gibson é um grande artísta. Já fazem alguns bons anos que ele fixou residência na Holanda, onde pôde desenvolver seu trabalho de uma maneira que seria inviável no Brasil. Como ele mesmo disse, em sua apresentação com o grupo EKE, teve a satisfação de estar de volta neste último sábado, dia 17 de Julho, depois de 10 anos em que se apresentou no Centro Cultural São Paulo na rua Vergueiro. EKE conta com Oscar Jan Hoogland: electric clavichord e Gerrie Jaeger na bateria.
Mas eu vou me abster de comentar a apresentação que foi de alto nível e focar sobre o ambiente deste tipo de evento. Existe algo no ar, eu não sei bem o que é, que destoa da realidade desta cidade e isso não tem haver com a falta de espaços para se apreciar este tipo de música que a maioria da população não tem acesso ou não tem interesse. A maioria das pessoas quer ouvir uma melodia temperada, padrões rítmicos que não sofrem mudanças bruscas, querem algo que possam assimilar com facilidade. A cultura brasileira gira em torno das canções moldadas na melodia européia clássica, que se abstem das dissonâncias inusitadas. Mas existe uma parcela mínima da população que buscou o acesso à cultura e suas fontes de informação e isso não quer dizer que todas elas pertençam á elite da sociedade, de maneira alguma. Muitos são estudantes de classes sociais onde não há luxo de colégios particulares ou de familias e bairros mais bem abastados. Digamos que no geral são do que se chama classe média, onde se vislumbra com mais nitidez a importância da cultura e a educação, os cursos superiores, as expressões artísticas. E olha que você pode ter alcance desta cultura pelas publicações populares à venda em bancas de jornal e centros culturais de prefeituras e governos, de forma gratuita, como é o caso do Centro Cultural São Paulo, algumas atividades e atrações dos SESCs, etc.
Enfim, teoricamente temos uma platéia "civilizada" que sabe se comportar em vários ambientes e não fazem "barraco", desligam seus celulares e aparatos eletrônicos como se recomenda a cada início de apresentação, fazem aquele silêncio solene até aplaudir cronometradamente a entrada dos artístas, como manda a cartilha. Sem dúvida, quando a música começa, o que importa é desfrutar daquele momento único que a improvisação livre proporciona.
Quando as peças e a performance se encerra, entra justamente o que eu quero falar neste post. Fui a esta apresentação porque um amigo que além de músico é parente do Yedo, me avisou do evento e também gostaria de revê-lo, uma pessoa agradável, independente de sua reputação e talento, o qual tive a honra de compartilhar uma peça de improvisação em uma outra ocasião.
Estava com um bom amigo, que não entende bulhufas deste tipo de cultura, que estava trabalhando de faxineiro, mas tem a mente aberta para preciar este tipo de música. Encontrei algumas pessoas conhecidas, mas há um certo procedimento similar à etiqueta de uma côrte, algo que não tem leveza, como eram as coisas nos tempos de reis e rainhas na Europa.
Creio que a maioria das pessoas alí presentes possui um leque de informação cultural muito mais amplo do que eu e meu amigo, apreciam a arte sofisticada de Stravinsky e Marc Chagall, já leram Nietzsche e Dostoyevsky, entre outras coisas.
Na tentativa de conversar brevemente com Yedo e seu irmão, fui interrompido por pessoas sem a menor cerimônia e posso afirmar categoricamente que isso não ocorre num churrasco de quintal, sem que se ouça um: "licença, faz favor".

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