sexta-feira, setembro 22, 2006

Freejazz, pintura e criançada

Bom, na última quarta-feira, dia 20, fui ensaiar com o grupo de improvisação que participo. Meus amigos Ana e Kazi, respectivamente trompete, cornet, flügelhorn e saxofone tenor e clarinete em Bb. Cerca de um mês atrás, meu velho amigo Léo ingressou no conjunto com saxofone tenor e flauta. Ana não pode comparecer ao ensaio no estúdio por conta de viagem à trabalho. Então o Léo chamou um trompetista que é amigo dele, o Leandro. Foi muito bom o ensaio, seguindo a minha proposta inicial, de improvisação total, muita intensidade sonora e uma ótima integração com o Leandro.
Outro fator diferencial, foi o horário, pois avançamos até 1:20h da manhã por conta do remanejamento de horários no estúdio. Nada demais se não fosse a nobre tarefa que me comprometí a realizar às 6:30h da manhã no dia seguinte! E pra ajudar, ainda tomei um chá com o Léo e ficamos conversando no café até quase 3:00h da manhã! Ou seja, o galo canta e eu, zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz de sono...
O que fazer? Descançar um pouco e me preparar para o batente. Meu amigo Cassiano, me propôs a participar da semana de artes da escola na qual ele leciona. Ele preparou o terreno para a criançada formada de pré-adolescentes, onde eu e ele falaríamos sobre a analogia do freejazz e a pintura, especificamente da action painting e dripping de Jackson Pollock.
Então logo de manhã, Cláudia, minha amiga e esposa de Cassiano passam em minha casa para me buscar. Separei capas de discos do Ornette Coleman, Ivo Perelman, capas da gravadora ECM, alguns DVD's para auxiliar o trabalho e, parte de minha bateria! Sim, a proposta era eu tocar enquanto a criançada pintava. Chegamos em Cotia, município de SP, onde se localiza a escola, num ambiente muito agradável, esquema sítio. Cassiano começou falando mais da pintura abstrata, preparando o terreno para a analogia com a música, falando da influência e amizade entre músicos e pintores, poetas, artístas em geral. Falei de como essa integração vai além das capas de disco, que músicos também pintavam e até faziam as próprias capas de disco, como Peter Brötzmann e Ivo Perelman, da ligação entre a abstração visual e a sonora. Incrível como a criançada escutou atentamente sobre o assunto. Um grande momento, passei um video do baterista holandês, o Han Bennink, onde ele improvisa sozinho com parte de um kit de bateria, caixa de papelão e outras quinquilharias e instrumentos. O véio que tocou com Eric Dolphy e The Ex é bem loco "joe", mostrando sua casa, suas pinturas desenhos e esculturas. A criançada adorou, assistindo com silencio e atenção! E o Bennink ajudou muito, pois é um cara muito divertido e hilário. Depois colocamos placas de papelão no chão, tinta acrílica de parede, pigmentos líquidos, pincéis e copos plásticos. Montei meu set que dispunha de um bumbo, caixa, prato e chimbal, o qual tinha esquecido a presilha e não poderia acionar o mecanismo dele. Mostrei pra eles o procedimento, furando o copo com tinta, como Pollock, e como usar os pincéis. Falei pra eles que enquanto eu estivesse tocando, eles pintariam de acordo com o som, o rítmo. Se dividiram em quatro grupos, respectivamente as quatro placas usadas como suporte da pintura. Praticamente eu pintei com a bateria e eles tocaram com as tintas. Foi muito divertido, eu fazendo uma barulheira e a criançada mandando ver nas tintas! No final, todo mundo sujo de tinta e quatro pinturas que ficaram muito bonitas(Espero poder postar as fotos das pinturas em breve).
Outra parada que foi muito bem, é que a criançada teve um contato real com as artes, com o freejazz de um jeito mais natural, não como uma chata conversa de jazzófilos e pseudo-intelectuais. Eles estavam receptivos e tiraram de letra. E mais uma vez a bela história se repete, fui ensinar uma coisa e acabei aprendendo outras... que alegria!

3 comentários:

tiago disse...

Pô Rubinho, que demais, queria ver essas pinturas. Se desenho de criança já costuma ser legal, imagina combinar isso com música. Você viu que o Han Bennink fez um workshop com alguns garotas nos Estados Unidos e postou as cartas que a molecada enviou pra ele nop saite?
É tocante. para ver, basta ir nesse link:
http://www.hanbennink.com/testimonials.htm

akirarw disse...

É Tiago, foi demais mesmo! E a criançada pirou quando falei que o Bennink curtia um punk. Logo mais eu coloco as fotos das pinturas por aqui. valeu o coment

Ana disse...

CA-RA-LHO, Rubinho, isso deve ter sido foda!

ó, tô abduzida mas eu volto, assim que os ETs descobrirem que eu não faço parte da raça deles e me colocarem de volta na minha vida humana! Tô com saudade do nosso som. Eu realmente acho que a falta dele afeta minha saúde física e mental.

Beijo!

 
 
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