quinta-feira, dezembro 30, 2010

Combat Tour Live: The Ultimate Revenge (1985)





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Sem dúvida este foi um dos presentes mais agradáveis deste ano de 2010. Sinceramente não tinha muitas esperanças de rever este homevideo que foi lançado originalmente em VHS, que era o formato disponível da época, em meados dos anos 80. Me trouxe à memória as tardes que eu passava na mítica mureta na ladeira da rua Dr. Falcão, em frente ao metrô Anhangabaú, no centro de São Paulo. Esta mureta ficava em frente da famosa loja especializada em heavy metal, a Woodstock Discos, do Walcir, que logo depois apresentou o progama de rádio Comando Metal, na 89fm. A Woodstock Discos era o grande ponto de encontro dos headbangers e dividiu esta posição com a Galeria do Rock. Lá eu fiz muitas amizadades, comprei fitas k7 de gravações dos discos importados, camisetas, os primeiros lançamentos pelo selo Woodstock. Me lembro quando tinha chegado o primeiro lote do split album do Sepultura/Overdose e lá estava o Toninho para me indicar o primeiro disco da então desconhecida banda de BH. O pessoal trocava material, como recortes de revistas e gravações, pois naquele tempo, não tinha a net e o acesso aos cd's e lp's, que vinham de fora. Era mais difícil obter material, quanto mais material em video. Quem imaginaria poder acessar um youtube e ver um videoclip em casa ou numa lan house nos anos 80? Então a Woodstock promovia sessões de video na própria loja, com uma tv de 20 polegadas no alto da pequena loja e um aparelho de video cassete. A loja ficava abarrotada de metaleiros se apertando para prestigiar os escassos videos que passavam na telinha.
Foi então que chegou a fita em VHS Combat Tour, registrando as bandas mais significativas do thrash metal da época: Venom, Slayer e Exodus. Era o auge destas bandas e era um sonho poder ver qualquer imagem delas em ação, já que era impossível assistir um show ao vivo, coisa que já ocorreu hoje em dia com estas três bandas aqui no Brasil. O máximo que ocorreu foi o show do Venom no ginásio do Corinthians ainda nos anos 80, mas foi uma grande decepção, pois o som estava péssimo, não era a formação original, enfim, quem estava lá sabe do que estou falando.
Posso dizer que Combat Tour teve o mesmo impacto de quando eu assistí pela primeira vez John Coltrane em video, tocando Impressions com Eric Dolphy. Eu não sei quem fez o rip do VHS e disponibilizou, mas eu e muitos, com toda certeza agradecemos por ter acesso à este material, depois de tanto tempo e posso dizer que o impacto é o mesmo daquela época.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Koji Morimoto: Extra - Ken Ishii music video (1995)

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Koji Morimoto é um dos prediletos da casa, sempre bom ver seu trabalho.

Feed Your Head - Stargazer (1989?)

Esta incomum banda punk de Manchester, UK, formada em 1986 gravou 3 fitas demo, 2 singles e 2 lp's, tocou com inúmeras bandas como Visions of Change, Hex, Scream, Instigators, Oi Polloi, Amebix, Chumbawamba, Civilised Society, Government Issue, Thatcher on Acid, Dan, Mottek, Anti-sect, White Flag, Culture Shock, UK Subs, The Stupids,The Varukers, Electro Hippies, etc. Pouco se sabe sobre o Feed Your Head, como outras bandas que não dispunham da net para divulgar seu trabalho. O FYH era uma banda totalmente independente, tanto que o lp Stargazer foi lançado por eles mesmos sob o selo Crucial Climate, de forma artesanal, com preço desenhado na capa e endereço para correspondência.
A primeira vez que ouví o FYH foi através do Ronaldo (que por um breve período tocamos juntos no Energy Induction com o Marcos) que trabalhava perto da minha casa numa oficina de motos. Isso foi em 1989, creio que o ano de lançamento do Stargazer. O disco tinha vindo pelo correio através dos intercâmbios de Ronaldo. Foi uma das coisas mais bonitas que já ouví no punk e tinha um elemento incomum, violino. Sim o FYH incluiu este instrumento em suas canções e ele é bem executado, não é um mero enfeite, pois dá um acabamento todo especial nas músicas em que se faz presente. Já que sou incapaz de poder ajudar tantas bandas que deixaram singelos registros em sua curta trajetória e não tiveram algum reconhecimento e muitas pessoas não tiveram acesso, eu presto minha pequena e pessoal homenagem ao Feed Your Head, que deixou lindas canções e espero que alguém coloque oficialmente à disposição das pessoas envolvidas com o punk rock e também deixem um registro mais detalhado, pois com certeza o FYH merece um capítulo na história da música independente. Nos comentários.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

(ainda em tempo) ai ai ai ui ui ui!

Feliz aniversário, seu véio doido.

E finalmente Ken Vandermark passou por aqui!

Eu poderia falar de outras pessoas também, mas não pude comparecer na apresentação de Han Bennink e Phil Minton no dia seguinte ao trio Vandermark, Ex e Sanders. Phil Minton eu já tinha me encontrado tempos antes e até demos um passeio pelo centro de São Paulo, junto dos meus queridos Lauro, Tiago e Thomas que providenciaram tudo. Bennink eu só fui apresentado pelo Marcio, mas tive que sair rapidamente por outros compromissos. Para quem gosta de jetset, estava um banquete farto, grandes improvisadores alí, bem pertinho e acessíveis. É isso que as pessoas tem que começar a ver, esta comunidade mundial musical não dá espaço a escalões, nomes, celebridades e fama. Aqui no Brasil não, é tudo na base de: "Quem é você? Com quem você tocou? Você é amigo de quem?" Aí veja e ouça o que acontece por aí, um bom número de músicos que nem sempre tem a técnica que tanto exaltam e não tem um mínimo de criatividade. Lá fora não, é: "Você é criativo, vamos tocar" e só, não importa de que toca tenha saído.
Não vou comentar sobre a apresentação em sí, a não ser que foi a primeira e muito esperada vinda de Ken por aqui e sua primeira performance com Luc. Mark e Luc já se sentem à vontade em São Paulo. Três improvisadores experientes e criativos que estavam em sintonia para partir do nada naquele palco fizeram o que me parecia óbvio e simplesmente se confirmou, um maravilhoso encontro musical.
O engraçado é que eu olhava para o Ken alí tão perto extraindo o seu melhor no saxofone e não conseguia fazer analogia com o Vandermark que ví na Jazz Times, Wire, nos videos do YouTube, do V5, do Chicago Tentet, nomeado MacArthur Fellowship, etc. Parecia que eu fui ver um amigo das antigas tocar e agora mora em outra cidade e não encontrei mais. Ken Vandermark é o que você vê na foto, o mesmo sujeito de camisa xadrez, calmo e gentil, daqueles que não dava trabalho na escola, amigo de todo mundo, mas reservado. A música? Ora, ela foi absorvida e ficará na memória, não nota por nota, mas como Monet, ficará a impressão daquela noite.
Aqui deixo as palavras que o próprio postou no facebook:

Ken Vandermark
‎12/10: 1st concert in Brazil, Sao Paulo w/Mark Sanders and Luc Ex. Hard work but we got results- Luc had his bag lost by the airline, all of his pedals were in it, so he was struggling w/the bass sound, and I felt like I was struggling with my tenor all night. Fantastic audience, standing ovation and encore.
Ken Vandermark Hi Rubens- Great to meet in person finally, and very happy you and your friends enjoyed the concert in Sao Paulo- it was amazing to be there! Porto Allegre was fantastic too; I hope that I can get back to Brazil soon!
Aliás o que eu lembrarei também, é que foi um dia que encontrei muitos amigos, até tive tempo de bater um papo com o Gastão e o Massari na lanchonete, sobre Iron Maiden, Chris Cutler, John Zorn... É! Rock não é inferior ao free jazz e free improvisation (o jazz foi foi libertado e qualquer um é livre para improvisar).


sábado, dezembro 04, 2010

Ken Vandermark: entrevista

Esta entrevista foi elaborada por mim à cerca de 4 ou 5 anos atrás, por e-mail, quando iniciei meu contato com Vandermark, onde descobrí uma pessoa antenciosa, simpática e simples. Eu já tinha publicado esta entrevista no blog Farofa Moderna, mas não ainda neste blog. Em tempo de sua primeira (que seja a primeira de muitas) vinda ao Brasil, republico-a para quem quiser conhecer mais um pouco deste talentoso artísta:




1. Quando você começou a tocar já pensava em fazer esse tipo de música que faz agora?
Eu cresci ouvindo todos os tipos de música, meu pai em particular sempre deixava o estéreo ligado quando estava em casa – na maior parte do tempo jazz mainstream (Monk, Ellington, Miles Davis, etc.), e música clássica (Stravinsky, Bach), alguma coisa da Mototwn, bossa, Frank Sinatra e Sly & the Family Stone. Depois de trabalhar no trompete por alguns anos eu percebi que não conseguiria tocá-lo bem o suficiente pra fazer algo sério e mudei pro saxofone tenor aos 16 anos. De primeira tentei compor minhas próprias músicas e tocá-las com um grupo que eu organizei com meus colegas na banda do colégio. Mas a coisa começou a andar quando meu pai me apresentou o álbum "Tenor" do Joe McPhee. Nessa época (eu tinha uns 17) seu interesse em jazz estava avançando pra fora do mainstream, meu pai estava escutando mais free jazz dos anos 60 (Ornette, Shepp) e assistindo mais shows de grupos contemporâneos em Boston (Joe Morris, The Fringe -com George Garzone, Bob Guilotti, John Lockwood; Shock Exchange, liderado por Dave Bryant), assim como a música mais ousada que vinha pra cidade (Don Cherry, Shepp, The Art Ensemble of Chicago, Sam Rivers). Como sempre fazia, meu pai me levava aos concertos, mas eu tinha problemas em assimilar as idéias desses artistas mais ousados, até que ouvi "Tenor". De alguma maneira aquele álbum colocava os sons mais abstratos da música improvisada em uma construção melódica que eu conseguia seguir – foi uma epifania. Assim que ouvi a música de McPhee eu disse pra mim mesmo: é isso que eu quero fazer.
2. Quando e como você formou seu primeiro grupo? Entre os muitos grupos dos quais você participa atualmente, algum recebe atenção especial?
Meu primeiro grupo sério foi organizado enquanto eu estava em Montreal estudando Cinema e Comunicação na Universidade McGill. Era um trio chamado Fourth Stream, meio que moldado no trabalho de Ornette Coleman e Albert Ayler. Hoje em dia, ao contrário do que muita gente possa pensar, todos os grupos com quais eu trabalho tem peso igual quando eu estou envolvido. Por muitos anos o Vandermark 5 foi o mais ativo e um centro crucial pro meu desenvolvimento como improvisador e compositor, mas o trabalho que fiz com outros conjuntos, usem eles composições ou pura improvisação são igualmente importantes pra mim. Cada um me apresenta uma série de parâmetros e personalidades diferentes, me impulsionando a desenvolver diferentes aspectos da minha música. Eu não conseguiria me dedicar a só uma banda, existem muitas idéias aí fora pra serem exploradas, e trabalhar com especialistas em seus campos específicos é a melhor maneira de aprender. Além do que, por exemplo, tocar com Paul Lytton e Paul Lovens teve a mesma importância que tocar com Hamid Drake e Paal Nilssen-Love, mesmo eles sendo todos bateristas muito diferentes entre si.
3. No Vandermark 5 cada música é dedicada a alguém. Você inventou isso ao mesmo tempo em que começou o grupo? Como é processo de composição?
Eu venho tentando reconhecer o impacto de outros músicos, artistas, cineastas, escritores e amigos por muitos anos. Dedicar as peças a eles é um jeito de mandar uma carta de agradecimento, mais do que indicar que a peça é baseada em compor no estilo musical deles.Meu enfoque na hora de compor é tentar e encontrar a identidade específica de cada peça baseada nos materiais que eu crio e nos músicos que estarão interpretando. Eu espero que cada peça seja singular, usando diferentes técnicas quando necessárias pra chegar na música pronta. Eu componho pros indivíduos que estarão trabalhando em um conjunto específico. Então, por exemplo, a música da Territory Band é escrita pros onze ou mais músicos que naquele grupo – eu não poderia pegar essas partituras e dá-las pra nenhum outro instrumentista e esperar que a música funcionasse corretamente.
4. Você segue algum tipo de filosofia pra fazer sua música? Você concorda que o artista deva catalizar alguma mudança dentro da sociedade?
Se tiver uma filosofia é que eu quero que minha música seja permitida ser livre, deixá-la trabalhar com parâmetros abertos pra que eu possa usar quaisquer fontes que eu sinta serem apropriadas pra levar a música a um espaço de improvisação e composição que é independente e original. Isso significa que é aceitável que alguns ouvintes não irão gostar de todo meu trabalho, preferindo um grupo ou sensibilidade no meu jeito de tocar em tal formação. Mas eu me recuso a ser colocado em uma série de caixas ditando o que eu posso ou não fazer de um ponto de vista musical. Gosto é uma coisa, mas a necessidade da busca e o processo da arte são outras. Eu acho que artistas criam mudanças na sociedade, mas essa é uma revolução que acontece em uma pessoa de cada vez. Sendo expostos a idéias criativas, seja através de música, pintura, literatura, etc., as pessoas estão convidadas a ter experiências da realidade de maneiras diferentes, a considerarem outras possibilidades além das apresentadas a eles todos os dias na mídia de massa. Se eles abraçam essas considerações é quase impossível que seu enfoque cultural em relação à política e com sua sociedade não seja afetado. Essa mudança pode ser lenta, mas é verdadeira pro indivíduo e sua experiência.
5. Existe alguma diferença entre o Ken Vandermark artista e o Ken Vandermark cidadão? Se isso acontece, como um influencia o outro?
Eu não tenho como fazer essa separação. Minha vida informa minha música, e minha música informa minha vida. Sem meu trabalho eu não conheceria o mundo como conheço hoje, e essas experiências mudaram completamente a maneira que eu enxergo o que toco. A música pôs meu pé na estrada, e as coisas que vejo e ouço quando estou viajando, experiências musicais ou não, me levaram a novas maneiras de pensar sobre o que faço. Minhas experiências com e através da música me obrigam a re-investigar meu mundo constantemente, artística e socialmente.
6. Você acredita que ainda há algo novo a ser feito na música, ou nós vamos sempre estar descobrindo algo do passado?
Sem dúvida: sempre há algo novo a ser criado nas artes. Eu acho que a chave pra isso é ser verdadeiro em relação ao seu período cultural. Tudo que é feito hoje em dia é influenciado pelos desenvolvimentos do passado, isso é impossível de evitar, e fingir que você pode permanecer inalterado pelo impacto da história é uma construção psicológica artificial. Porém é necessário enquanto artista fazer mais do que recriar o passado, isso é inútil criativamente. É preciso construir algo individual de seus recursos, e cada pessoa tem uma série de experiências diferentes que são integradas por suas histórias pessoais: um passado cultural, sua situação social presente, suas observações artísticas, etc. Às vezes a percepção e expressão individual é revolucionária, como no caso de Ornette Coleman ou Picasso, às vezes é simplesmente pessoal, como no caso de Stan Getz ou Max Beckmann.
7. Você acredita que a música de improvisação completou sua evolução ou isso é algo infinito, como um alfabeto, que possibilita novos sentidos para as letras que nós já temos?
Pros meus ouvidos e mente as possibilidades de improvisação são infinitas. Eu não acho que jazz ou música improvisada sejam estilos, eu acredito que é um método. Esse método tem uma coleção de ferramentas internacionais, linguagens e idéias que têm sido desenvolvidas ao longo do século XX e agora no século XXI. E quanto mais ferramentas um indivíduo desenvolve, mais ele pode se expressar espontaneamente através de música improvisada.
8. Você concorda com John Zorn quando ele declara que free jazz, improv e outras vanguardas musicais em geral não vão alcançar o grande público, mas que seu público se renova a cada geração mantendo mais ou menos o mesmo número de pessoas envolvidas?
Eu penso que os assuntos enfrentados pelos músicos de jazz e improvisação são múltiplos. Primeiro, eu acredito que a mídia mainstream especializada em jazz colocou a forma artística em um gueto musical elitista, ajudando a removê-la da percepção ou interesse da população em geral. Em segundo lugar, a maior parte dessa música é desafiadora para os músicos e, portanto, pro público. A maioria da população não é interessada de verdade em música, eles estão interessados em um papel de parede sonoro – algo bom pra ter por perto desde que não interrompa seu ambiente ou desafie suas expectativas. Estou interessado em encontrar uma maneira de quebrar a noção pré-concebida, desenvolvida pela mídia e por muitos músicos que é impossível que a música improvisada encontre um lugar real na sociedade contemporânea. A questão é encontrar fãs de música. Esse é o público que vai aos meus shows na América do Norte e na Europa, pessoas entre 20 e 40 anos que ouvem todo tipo de música: jazz, rock, reggae, funk, hip hop, música erudita, etc. e são essas pessoas que os músicos de improvisação precisam encontrar e tocar para, não para o fã elitista de jazz que já tem uma definição de como a arte pode ou não ser.
9. Quando você tem tempo, o que costuma ouvir?
Praticamente tudo em que consigo por minhas mãos. Eu tenho milhares de cds na minha coleção. Tem de tudo, de Albert Ayler a Hank Williams. Se estiver numa festa eu gosto de escutar funk antigo, reggae e rock (James Brown, Charles Wright, Stax, Funkadelic, Curtis Mayfield, Sly & the Family Stone, Lee Perry, King Tubby, Jackie Mitto, Studio One, The Ex, Shellac, Wire, Public Enemy, Fugazi); se eu estou fazendo uma audição é bem variado (Mississippi Fred Mc Dowell, Morton Feldman, Miles Davis, Duke Ellington, Iannis Xenakis, Peter Brotzmann, Evan Parker, Ornette Coleman, J.S. Bach, Albert Ayler, Anthony Braxton, música étnica do mundo todo, Charles Mingus…).
10. A pergunta inevitável. Você conhece alguma coisa de música brasileira? O que?
Meu conhecimento de música brasileira é muito limitado infelizmente. Mas alguns de meus discos favoritos de seu país são: o disco de João Gilberto que leva seu nome, "África Brasil" de Jorge Ben, "Domingo" de Gal Costa e Caetano Veloso, "Tropicália ou Panis Et Circensis".Por favor, faça algumas sugestões!
Entrevista por Rubens Akira, tradução por André Maleronka

Ken Vandermark, Mark Sanders, Luc Ex em São Paulo dia 10 de Dezembro

Nesta semana, temos oportunidade de prestigiar pela primeira vez no Brasil, um dos artístas mais expressivos da atualidade, que tem suas raízes no que se condicionou a chamar de jazz. Ken Vandermark vem do tradicional reduto onde este tipo de música avançou por campos mais ousados, que é a cidade de Chicago. Um dos seus maiores representantes era o grande saxofonista Fred Anderson e seu bar Velvet Lounge, que abrigou a mais ousada música de Chicago durante muitos anos.
Vandermark cresceu ouvindo o jazz tradicional e o mais ousado através de seu pai, que o levava às apresentações e sempre deixava o estéreo ligado em sua casa. Vandermark iniciou no trompete, mas logo decidiu pelo saxofone tenor e o disco Tenor de Joe McPhee teve importância crucial em sua decisão por fazer uma música mais livre. Vandermark desenvolve dezenas de projetos simultâneos, sendo que o Vandermark 5 é o principal deles. Faz o intercâmbio com os improvisadores da Europa constantemente, tendo constantes parceiros, músicos como Peter Brötzmann, Paal Nilssen-Love, Mats Gustafson, entre tantos. Nos últimos anos, adicionou o
saxofone barítono ao lado do tenor, clarinete em Bb e clarinete baixo. Vandermark tem uma característica única, que dialoga com a música popular contemporânea, como pode ser constatada nos seus projetos Spaceways Inc. e Powerhouse Sound, que exploram os territórios do rock, funk, hiphop e reggae.
Mark Sanders é um percussionista que tem papel essencial no cenário da improvisação livre e colaborou com os mais criativos imnprovisadores da Europa, como Evan Parker, John Butcher, entre tantos outros. Já esteve por aqui se apresentando com o pianista Veryan Weston e Luc Ex, ao lado do grande pioneiro na improvisação livre no Brasil, o percussionista Antonio Panda Gianfratti, que além de ser um artísta de expressão e criatividade, é um amigo especial.
Luc Ex fez parte de um dos mais expressivos grupos do underground, o holandês The Ex, que saiu de suas raízes do chamado anarco-punk para explorar o território livre da improvisação. Participou de projetos com Tom Cora, Phil Minton, Veryan Weston, etc.

Ken Vandermark, Mark Sanders, Luc Ex
- Centro Cultural São Paulo dia 10 de Dezembro às 19:00h

Rua Vergueiro, 1000 - Metrô Vergueiro - São Paulo, SP
Entrada franca (retirada de ingressos: duas horas antes da sessão)
- Sala Adoniran Barbosa (631 lugares)


Para saber mais sobre os músicos, acesse:

http://www.kenvandermark.com/

http://www.marksanders.me.uk/

http://www.lucex.nl/



terça-feira, novembro 30, 2010

Morte ao Jazz, Free Jazz, etc.!!!

Estamos encerrando a primeira década do século XXI e ainda se perde tempo com os rótulos e nichos de mercado. É um assunto abordado à exaustão pelos críticos de música, que em sua maioria, argumentam segundo suas fontes de pesquisa e estudo, segundo suas teorias e interpretações sobre teorias alheias. Muitos usam do argumento que sabem que isso não é importante, mas se faz necessário como forma didática ao público. Aí é que reside o erro. Perpetuam este conceito pobre de rotular com expressões que foram criadas em circunstâncias nem sempre bem esclarecidas. West Coast Jazz, por exemplo, o que isso quer dizer? Ah, o estilo de Jazz feito na costa oeste dos EUA, mais cool, diferente da costa leste, do ritmo duro e estressante das grandes cidades, de New York... Então o Ornette é o que então, se seu primeiro disco foi lançado por um dos principais selos "West Coast" que é a Contemporary Records, sob a indicação do baixista Red Mitchell? E o Herman Blount (Sun Ra), é o que, "Saturn style"?
Isso definitivamente já era, meu caro. O perfil de consumo musical mudou drasticamente nestes últimos 20 anos, já não se vai à uma loja e nem se encontram tais com os compartimentos de gravações separados por estes sub-gêneros e as pessoas não consomem música desta maneira.
Uma vez ou até mais de uma, perguntaram ao Max Roach se ele ouvia Jazz e ele disse que não, que só ouvia música. O Art Ensemble Of Chicago prefere chamar artisticamente seu trabalho de Great Black Music, Peter Brötzmann diz que sua música pode se chamar de Jazz, mas isso ele quer dizer que ele começou a tocar saxofone por conta de músicos como Ben Webster e Coleman Hawkins e a palavra Jazz diz a ele como um estilo de vida, não um rótulo musical, de gênero musical, estilo musical.
Há tantos elementos dentro da obra de muitos artístas que soa muito pobre, deficiente e equivocado rotular desta forma. Se uma pessoa escutasse o Sketches Of Spain, sem saber que era Miles Davis, provavelmente não diria que é um disco de Jazz, assim como diriam que Machine Gun de Brötzmann nem deveria ser considerado como música, devido a sua torrente sonora agressiva fora dos padrões populares de rítmo, harmonia e melodia. Definitivamente isto não funciona da melhor maneira, pelo contrário, cria vícios e limita o espectro de concepção de arte, de música de um indivíduo.
Amigos, não sou melhor do que nenhum ser humano da face da terra, mas como dizem, fiz minha lição de casa. Muita leitura de livros, artigos, entrevistas, audições, prática e estudo musical individual e coletiva. Então eu também fecho com os artístas mais experientes que ignoram a relevância destas denominações como Free Jazz, Cool Jazz, Hard Bop e etc. esta é minha opinião como um simples músico, apenas isso.
É esse tipo de conceito antropológico equivocado que gera conflitos, pré-conceitos, bairrismo, segmentarismo no mau sentido e até racismo e intolerância. Pode soar radical esta observação, mas é só observar os fatos, a história e se pode identificar estes sintomas.
Como Ornette é o assunto em voga em São Paulo recentemente ou a bola da vez, em sua singela simplicidade e sabedoria, ele proferiu: THIS IS OUR MUSIC...

sexta-feira, novembro 19, 2010

Todo mundo ama o Ornette

Neste último domingo do mês de Novembro o quarteto de Ornette Coleman se apresentou no Sesc Pinheiros num final de tarde quente e ensolarada.
Não pude deixar de observar a mudança ocorrida na rua Paes Leme que hoje abriga o Sesc. Antes, à vinte anos atrás, neste mesmo local e na mesma hora, a rua estaria tomada de outro público, que frequentava o extinto salão Asa Branca, onde rolavam os bailes. Os termos eram diferentes, os bailes, que eram funk, não tinham nada haver com o que se hoje fala do baile funk. Não tinha esse negócio de "baile black" e "manos" e o tal do funk carioca. Vários jovens eram chamados de "função", trajavam camisa polo (ou as famosas camisas de vôlei azul do time Pirelli com gola), calça jeans com a barra alargada com uma tira de couro (as famosas "pizzas") e o cabelo escovinha (corte com máquina bem baixinho e se fazia um vinco no lado esquerdo ou direito no topo, como se fosse uma divisão no cabelo). O pessoal não era tão chegado em rap, no máximo curtiam um Zapp, Kurtis Blow, Whodini. Se o público do Sesc estivesse alí naquele tempo, teriam saído correndo temendo um arrastão. Neste domingo, era um desfile de smartphones, tênis importados e predominância de pessoas "brancas", de classe média.
Bem, vamos ao Ornette. Confesso que não tenho mais aquele frenesi por conta de um show internacional, tanto que já estava tranquilo de não ver o Ornette porquê não tinha dinheiro para comprar o ingresso, que se esgotou rapidamente bem antes. Mas fui abençoado com um par de ingressos e fui com minha amada. Cheguei na hora marcada, afim de não ficar naquela "sala de estar" deste tipo de evento, onde todo mundo "ama" o Ornette. Sim, pois a maioria do público nem dava bola para o que o Ornette andou fazendo nestes últimos anos e se falavam alguma coisa, era de seu passado, do quarteto com Don Cherry, Charlie Hadden e Billy Higgins ou Ed Blackwell, de Lonely Woman ou Free Jazz. Eu não estava afim de ver o mito, o ícone e sim, apenas boa música (This Is Our Music)...
O auditório estava cheio e animado, parecia um público de show de rock, com gritos, palmas e assovios inflamados. Num momento, alguém gritou: "Ornette eterno!!!". Alguns ignoram seu valor artístico e apenas enxergam um velhinho negro americano do jazz e suprem suas carências de entretenimento.
Ornette executou várias composições conhecidas de sua carreira, mas de forma diferente do formato original, tornando-as vívidas, vibrantes, emocionantes, com o frescor de sua criação. Bem diferente de ver o Paul cantando Sg. Peppers. Não tinha este aspecto museológico, definitivamente. Ornette continua o mesmo agora com um saxofone alto de qualidade, pois aquele famoso de plástico branco, era por conta da falta de dinheiro para comprar um melhor. Não perdeu sua técnica pelo avanço e limitações físicas da idade, seu som soa tão bom quanto naqueles tempos. Denardo, seu filho, que estreou ao lado com 10 anos de idade na gravação Empty Foxhole e está também em exelente forma e técnica na bateria. Ouve um momento em que acabou a luz na região e eles tocaram Lonely Woman no escuro e sem amplificação, até voltar a energia elétrica. O público foi ao delírio. No final o quarteto ficou um bom tempo recebendo o público à beira do palco.
Mas o que mais me emocionou foi presenciar pai e filho partilhando música com o público, não importava se eram Ornette e Denardo Coleman.

terça-feira, novembro 16, 2010

Repressão ao artesanato de rua pela Prefeitura de São Paulo e a Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto

Esta situação tem se agravado nestes últimos tempos, quando a velha Feira das Pulgas ou Feira da Benedito Calixto, que ocupa o espaço público situado em uma praça entre as ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde aos sábados, com o intuito de vender antiguidades, artesanato, discos e livros usados, tem perdido uma parcela de público para a feira de rua que fica na calçada da Teodoro Sampaio, entre as ruas Lisboa e João Moura, composta por artesãos e fica logo na esquina da Pça benedito Calixto, funcionando como uma extensão independente neste pequeno circuito cultural do bairro de Pinheiros.
Comandada pela Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto, uma organização particular que não é composta por moradores das residências ao redor da praça, que tem violado direitos constituicionais e do espaço público. Esta associação tem agido de forma ilegal e se apropriado indevidamente do espaço público, como se fossem donos do local, como se a praça fosse uma propriedade deles. Sou testemunha deste abuso, pois à alguns anos atrás, executei uma apresentação de bateria solo na calçada em frente ao banco Bradesco, em frente à praça e fui questionado pela segurança particular da associação. Indignado com a atitude, fui buscar esclarecimento na sede da associação, que ocupa um imóvel no local. A responsável me tratou de forma truculenta e ainda me ameaçou em chamar a polícia se eu voltasse a tocar meu instrumento no local. Isso fere o artigo 5, inciso IX - É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
A feira da Benedito comandada por esta associação (que inclusive está sendo investigada pela Justiça por irregularidades) tem perdido público pelo desinteresse de muitos pela falta de inovação dos expositores, da elevação de preços dos produtos, perdendo a característica inicial da feira, como os sebos da região, que vendem livros com preços similares das livrarias?!. O aumento deste custo é provavelmente proveniente da taxa abusiva que a associação cobra dos expositores que estão sujeitos a serem expulsos por coação física e é repassado ao consumidor e também pela ganância de alguns expositores, visando o poder aquisitivo que na maioria é composta pela classe média da região, que é maior em relação à maioria da população paulistana (proletariado).
Então muitos tem procurado a feirinha da Teodoro, que caminha independente da Benedito, mas é extremamente próxima a ela, que pratica preços justos e acessíveis, possui bom atendimento por parte dos artesãos e consequentemente tem ganhado a aprovação dos frequentadores da região.
Em contrapartida, a Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto e alguns expositores, tem se comportado como empresas de capitalismo selvagem, que usam dos meios mais abomináveis para eliminar a livre e saudável concorrência, tentando impor uma ditadura, eliminando a oferta e direcionando a procura pelos seus produtos, impondo seus preços e sua "lei". Ora, isso se chama Cartel, Máfia ou coisa parecida. Usando de suas influências, tem acionado a Guarda Civil Metropolitana, a Polícia Militar e fiscais da Sub-Prefeitura para oprimir e confiscar o material dos artesãos, como se eles fossem contrabandistas e membros da pirataria de produtos, que é um notório problema da região central da rua 25 de Março.
Se você tiver interesse nesta questão de cidadania, procure o blog do Wanderlei, habilidoso artesão e cidadão articulado, que pode lhe esclarecer com mais precisão esta vergonhosa situação. Exerça sua cidadania e apoie a liberdade de expressão!

http://wanderart.blogspot.com/

segunda-feira, novembro 15, 2010

Hakim Bey - T.A.Z. (1994)

Hakim Bey: voice(readings)
Wu Man: biwa(pipa)
Buckethead: guitar
Nicky Skopelitis: guitar
Bill Laswell: bass, sampler, technician(treatments), producer, arranger

Hakim Bey, é o pseudônimo de Peter Lamborn Wilson que nasceu em Maryland nas proximidades de Baltimore no ano de 1945. Historiador, escritor e poeta, pesquisador do Sufismo bem como da organização social dos Piratas do século XVII, teórico libertário cujos escritos causaram grande impacto no movimento anarquista das últimas décadas do século XX e início do século XXI.
A idéia sobre uma Zona Autônoma Temporária é de como um grupo, um bando, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizadas podem maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Em linhas gerais é uma organização para o desenvolvimento de atividades comuns, sem controle de hierarquias opressivas. Para Hakim Bey, uma TAZ é uma aglutinação de pessoas que se encontra em tamanha complexidade que se pode dizer que toda uma sociedade está dentro da TAZ. As idéias são semelhantes as apresentadas pelo grupo teórico Bolo Bolo e pelo autor Ivan Illich. Embora Hakim Bey escreva um livro inteiro sobre TAZ, não é seu intuito definir e fixar formas, ou padrões de como seria uma destas zonas. O máximo que faz é circundar o assunto, lançando algumas explicações gerais. O que chamamos de TAZ desenvolve-se como um levante, algo excepcional na história , que, apesar de muitos classificarem como uma revolução que fracassou, eleva o grau de intensidade da vida e da consciência. Libertar-se, revolucionar pode partir de um indivíduo, ou de um bando. E é isso que poderiamos colocar como um princípio e possível objetivo da TAZ: liberdade independente e autônoma. Por tais características, a TAZ se assemelha muito ao comunalismo intencional e ao comunalismo libertário, chamados por Kenneth Rexroth, simplesmente, de comunalismo.
O livro T.A.Z. (Zona Autônoma Temporária) foi escrito em 1985 foi traduzido para vários idiomas Nele, a partir de estudos históricos sobre as utopias piratas, descreve a criação e propagação de espaços autônomos temporários como tática de resistência e esvaziamento do poder.
Clique na imagem para acessar o arquivo.

"The T.A.Z. is like an uprising which does not engage directly with the state, a guerrilla operation which liberates an area (of land, of time, of imagination) and then dissolves itself, to re-form elsewhere/else when, before the state can crush it." - Hakim Bey.

sexta-feira, novembro 12, 2010

A morte do Hardcore Punk

Estamos no final da primeira década do séc.XXI e mais um óbito de uma cultura é presenciado: A morte do Hardcore. Não? Bem, se você faz parte dos envolvidos neste movimento e estilo cultural, político e musical, que ainda frequenta apresentações (gigs), lê ou publíca zines, tem uma banda ou coisa semelhante, sugiro que faça um panorama reflexivo, sem paixões sobre o Hardcore Punk hoje em dia. Ah, o Do It Yourself Never Dies... Mas isso não é uma invenção do HC e sim de culturas e movimentos que já passaram por este mundo. Mas você tem toda a liberdade de discordar (dischord) e dizer que a chama ainda queima (flame still burns). Então não perca tempo lendo este post. Este não é um blog segmentado.
O Hardcore Punk viveu sua "época de ouro" nos anos 80 e uma parte dos 90 com a proliferação de bandas, zines, programas de rádio, midia em geral através do mundo. Aqui no Brasil, as coisas sempre chegaram com um certo atraso e distorção de valores, que hoje em dia não acontece como antes, devido à era digital e a world wide web, que permite o acesso direto à fonte. Eu posso falar sobre boa parte do que ocorreu aqui em São Paulo, pois participei desta cultura, portanto não sou um pesquisador de laboratório que nunca foi à campo, teórico ou alguém que só leu algo na net ou outro veículo de informação. Mas não estou aqui para fazer uma autobiografia e nem uma biografia sobre o Hardcore Punk paulistano neste reduzído espaço digital.
A intenção aqui é avaliar o que existe e resiste hoje em dia. Existem algumas casas noturnas que abrigam apresentações de bandas estrangeiras periodicamente, há alguns poucos espaços que são direcionados ao HC, algumas lojas de discos, alguns zines, muitos blogs e sites, alguns festivais, etc. Mas o que era concebido como cenário HC já não existe mais, as coisas mudaram, ou melhor, sofreram uma mutação e não uma evolução, infelizmente. O HC teve o mesmo fim que o movimento Flower Power dos anos 60, que ainda deixa resquícios ou sequelas de seu impacto, mas a sua força e autonomia já se foi, sinto muito.
Os remanescentes praguejam contra produtos como NX Zero, CPM 22, etc, mas isso nunca foi novidade em movimento musical que já existiu. Sempre a indústria, os empresários ou pessoas que são carentes de pertencerem à um grupo e portar algum rótulo se infiltraram em qualquer que seja a denominação coletiva musical e cultural.
E de pensar que o termo emocore (emotional hardcore) veio de grupos de Boston como Rites Of Spring, Embrace, etc, iria desembocar em coisas como Fresno e afins, realmente é trágico (como diria o sr. Omar, do seriado "Todo Mundo Odeia o Chris").
Hoje já vemos jovens na faixa dos 30 anos relembrando das gigs noturnas na metrópole paulistana, das saudosas lojas de discos na Galeria do Rock, que eram o ponto de encontro deste segmento. Alguns se assemelham aos punks quarentões que vivenciaram o início do Punk nos anos 80 e lamentam seu declínio entre goles de cerveja ou outro goró mais forte. Decline of the western civilization... Mas alguém ainda grita: "This is not the end!" (citação de uma música do Agent Orange).
O Hardcore se auto destruiu, deu o famoso tiro no próprio pé, seu radicalismo sufocou a sí mesmo. Nem os diamantes são eternos, tudo passa na história da humanidade. Mas não precisava ser assim, uma morte sem dignidade, uma morte agonizante e desapercebida, como morre um indigente debaixo de um viaduto. As coisas poderiam ter evoluído, se aprimorado e se adaptando aos tempos contemporâneos, assim como ocorre felizmente com o chamado free jazz na Europa e EUA. Nestes continentes o Hardcore Punk ainda encontra um espaço com dignidade, mesmo que bem mais reduzido, por manter o bom senso, sem levar em conta que preservou certas colunas de sustentação básicas para existirem, sem distorcer de forma bizarra sua criação.
Bem, alguns aqui até que estão tentando fazer alguma coisa, outros fazendo documentários (ou seriam obituários?) e não posso dizer com exatidão os seus fins e suas reais intenções.
Aquele côro do Youth Of Today que dizia: Keep it up!, soa tão distante agora...

quarta-feira, novembro 10, 2010

FIIL 2010 FESTIVAL INTERNACIONAL ABAETETUBA DE IMPROVISAÇÃO LIVRE

Dias 13 e 14 de Novembro no CCSP sala Ademar Guerra, entrada franca:
John Edwards - contrabaixo (Inglaterra);
Saadet Türköz - voz (Turquia);
Raymond MacDonald - saxofone (Escócia);
Ricardo Tejero - clarinete e saxofone (Espanha);
Michelle Agnes - piano (Brasil);
Thomas Rohrer - rabeca/saxofone (Suiça/Brasil);
Panda Gianfratti - percussão (Brasil).

Apresentações:
Sábado: às 20:00h;
Domingo: às 19:00h.

Oficinas:
Sábado: dia 13, às 12:00h com Ricardo Tejero e às 15:00h com Saadet Türköz;
Domingo: dia 14, ás 12:00h com Raymond MacDonald e ás 15:00h com John Edwards

Clique no Link http://fiil2010.blogspot.com/ e confira todas as informações, releases dos músicos participantes, fotos, videos e textos, ou consulte a programação de novembro do Centro Cultural de São Paulo.

terça-feira, novembro 09, 2010

Pede pra sair, 02!!! (Tropa de Elite 2) - A polêmica, os devaneios teóricos e a realidade

"Pede pra sair, 02, você é um fraco..." - Assim fala um dos instrutores do curso de operações especiais da polícia do Rio de Janeiro ao corrupto capitão Fábio, que tentou entrar no Bope para não ser executado, no primeiro episódio do filme que gerou grande polêmica no Brasil.
Ontem, segunda-feira, aproveitei o evento Projeta Brasil das salas da rede Cinemark, em que se podia assistir cinema brasileiro à R$ 2,00 e pacote de pipoca de bom tamanho à R$ 4,00. Fazia tempos que não ia ao cinema por falta de orçamento (é meu caro, eu não tenho R$ 15 para ir ao cinema sempre) e ainda mais numa sala de projeção dentro de um shopping center. Por questões práticas, me dirigí ao insólito shopping Iguatemi, que também não entrava fazia muito tempo e constatei um ambiente deprimente. O irônico é que este shopping quando foi inaugurado em meados dos anos 60 do séc.XX, não era um lugar tão cobiçado quanto é hoje e teve muita dificuldade de atrair lojas. Eu pessoalmente frequentei este local entre os anos 70 e 80 com certa regularidade por conta do cinema, lojas e serviços que eram mais acessíveis à população menos abastada economicamente, tanto que se encontravam estabelecimentos como Lojas Americanas, mercado, lanchonetes semelhantes aos botecos (não essas aberrações "chic"da Vila Madalena como Filial, Genésio e Posto 6) de bairro. Hoje se tornou um ícone de ostentação ao luxo, com lojas que são alvo de quadrilhas organizadas (oportuno isso e sugestivo ao post, não é?), por conta de seus artigos caríssimos. Como as salas de cinema são no oitavo andar, ao qual preferí chegar não pelo elevador e sim pelas escadas rolantes do local, pude observar o aspecto transformado dos tempos de minha infância e adolescência. Me deparei com o extermínio de lojas populares para dar espaço à inquilinos de grife e me lembrei que tinham até duas lojinhas de mágica, aquelas bem povão mesmo, que vendiam bala com pimenta e outras traquinagens, duas lojas de discos que podia se comprar um lp do Dead Kennedy's ou Iron Maiden, por exemplo. O mais triste foi o aspecto dos frequentadores do local, membros de uma parcela mínima da população que ganha muito mais do que 10 salários mínimos mensais, e tentam se sentir em um lugar sofisticado, pois eles não podem de fato estar em lugares como Manhattan, Louvre ou um boulevard requintado na Europa. Irônico também é que nos ditos países de primeiro mundo que essas pessoas cobiçam, os shoppings são considerados lugares até cafonas pela elite.
Deprimente também são os frequentadores que não possuem um bom patrimônio econômico, que são formados por exemplo, por recepcionistas, operadores de telemarketing, sub-gerentes de lojas, etc, que almejam se enquadrar neste bizarro cenário de bens materiais e consumo fútil, mesmo que tenham que comprar uma "réplica" de uma bolsa Louis Vouitton na 25 de Março, para se sentirem "iguais" na aparência. Mas só que no final do passeio, alguns poucos se dirigem ao estacionamento e adentram em seus carros que nem sempre são um BMW, enquanto boa parte tem que enfrentar um ônibus lotado em direção à periferia.
Bem, entro na sala de projeção e começa o entretenimento. Eu não sou um cinéfilo, não sou um crítico de cinema, não sou um Rubens Ewald Filho, Leon Cakoff ou Amir Labaki para fazer uma profunda análise crítica do Tropa de Elite 2. Não acho o Godard, Truffaut, Lars Von Trier as cerejas do bolo e também não gosto de bobagens como Velozes e Furiosos, filmes da Pixar studios, Lost, Friends e outros anestésicos de entretenimento em massa.
Então não fui assistir o Tropa com um entuito de prestigiar a "sétima arte", tanto que esperei a oportuna bilhetria à R$ 2,00. Também não esperava ter uma epifania sobre a realidade do país por conta de uma obra de ficçao baseada em fatos reais. Amigos, o Tropa de Elite não é um documentário, é apenas um filme! Existem muitas pessoas ditas cultas que precisaram assistir um Cronicamente Inviável, Ensaio Sobre a Cegueira, Carandirú ou até o Cidade de Deus para ter uma noção da realidade do Brasil?!
Não faltaram debates inflamados promovidos por intelectuais sobre os danos que o capitão Nascimento estava causando na população, que o filme é uma ode a repressão policial, do herói fascista, de direita e outros blá, blá, blás. É só mais um filme...
Eu particularmente gostei do filme, serviu para me entreter numa tarde de muito calor e trânsito caótico na bizarra metrópole paulistana. Alguns aspectos do filme me entristeceram, como a corrupção, a crueldade e injustiça humana, que já me deparei pessoalmente várias vezes, que estão ilustradas no filme de José Padilha. Não reparei se o enquadramento, a fotografia e outros elementos do filme eram bons ou não, inclusive sobre a qualidade do roteiro. Relembrar da realidade cotidiana numa confortável sala com ar condicionado e sistema de som Dolby, Surround ou DTS numa enorme projeção é algo bem peculiar. Mais impactante é sair após a sessão e deparar com aquele cenário surreal do shopping Iguatemi, atravessar a avenida Faria Lima, esperar pela van que vêm lá da periferia da zona sul em rumo ao Hospital das Clínicas e me dirigir ao culto de ensinamento bíblico na Assembléia de Deus num humilde salão em Pinheiros, onde tenho comunhão com pessoas que em sua maioria, sequer cogita em comentar algo sobre arte, como Truffaut enquanto come algo no América.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Napalm Deah - F.E.T.O. demotape (1986)

From Enslavement To Obliteration é o mesmo nome do lp que o Napalm Death lançaria em 1988 com Lee Dorrian nos vocais. Nesta demotape ainda formada pelo trio com Jus na guitarra, Nik nos vocais e baixo e Mickey na bateria, encontram-se músicas que foram re-gravadas no lp Scum, o marco do estilo grindcore, com seus blast beats e músicas com duração de segundos, que influenciariam um dos mais criativos músicos surgidos no final do século XX, John Zorn e seu projeto Naked City. Clique na imagem ao lado para acessar o arquivo.

domingo, outubro 31, 2010

Ornette, Vandermark, Brötzmann no Brasil... mas e daí?

Antes de alguém pensar que sou um pessimista, já adianto que devemos abandonar nossos anseios e observar a nossa realidade. Sim, eu particularmente me alegro com a visita destes músicos mais ousados por este país, mas daí a vislumbrar São Paulo como mais uma conexão do restrito cenário do free jazz e improvisação livre, é um tanto quanto prematuro e incerto.
Por quê? O que temos por aqui? Onde estão os artístas brasileiros? Tudo bem, existe o trabalho pioneiro do meu amigo Panda e seu projeto Abaetetuba, mas seus outros integrantes estão trabalhando no circuito europeu. Ah, mas tem o Ibrasotope (que está mais ligado a outro cenário musical), o Otis trio... Mas estes por acaso estão se integrando, formando a base de um cenário ou cada um está fazendo o seu próprio caminho? Eu mesmo confesso que não tenho me empenhado em meu próprio projeto ou voltado a trabalhar em algo futuro com o Panda.
Veja o caso do meu caro Ivo Perelman, que parece preferir trabalhar de forma independente, como atração estrangeira, não tendo muito sucesso em se relacionar com os músicos brasileiros. Há algumas especulações em relação a isso, e uma delas não é muito agradável e é polêmica e
não é oportuno abordar agora. Então, mesmo que o Ivo seja brasileiro, já se tornou um estrangeiro em sua terra à muito tempo. O que temos?
Eu mesmo testemunhei uma situação tenebrosa que ocorreu mais de uma vez com meu amigo Panda, que posssui relações sólidas com grandes artístas da improvisação livre, como Veryan Weston, Hans Koch entre outros e ele é sumariamente boicotado nos eventos destes artístas quando se apresentam por aqui, promovidos por certas instituições culturais. Mas pela amizade e afinidade musical, o Panda consegue organizar alguma sessão de improvisação livre com eles, mas longe dos holofotes do enfadonho, mesquinho, provinciano e restrito circuito cultural paulistano. Não? Eu presenciei uma das melhores sessões com o Panda, Thomas Rohrer, Veryan Weston e Trevor Watts num local hostil, uma tabacaria na região dos Jardins. Dava para contar nos dedos de uma mão o número da platéia, não contando com os habitués do recinto que foram pegos de surpresa e que estavam lá por conta da atração oficial da casa.
As duas vezes que o Veryan Weston esteve em São Paulo, o Panda, seu parceiro musical, foi sumariamente excluído da programação dita oficial.
Alegaram que o Panda não era um nome conhecido naquele circuito, que transita no chamado meio independente paulistano. Quem entende e percebe realmente quando uma sessão de improvisação livre é bem sucedida, testemunhou o fiasco daquela fatídica noite no CCSP em que Veryan Weston, Mark Sanders, Luc Ex, Ivo Perelman e outros músicos se reuniram no mesmo palco. Minto? O Panda me relatou o que Veryan, Mark e Luc acharam daquela situação a qual não exporei para não ofender à ninguém.
Na Europa e particularmente em Chicago, nos EUA, o cenário de free jazz e free improvisation existe, mesmo que de forma restrita, por conta de uma comunhão dos músicos, que procuram agregar-se sempre. Todo mundo toca com todo mundo, possibilitando novas experiências musicais para músicos e público.
Será mesmo que estamos caminhado para o certo?

sexta-feira, outubro 29, 2010

Interrompemos a nossa programação para o horário de propaganda política obrigatória

Propaganda: s.f. - 1. Conjunto de atos que têm por fim propagar uma ideia, opinião ou doutrina; 2. Associação que tem por fim a propagação de uma ideia ou doutrina. Ação ou efeito de propagar ou difundir, princípios, teorias etc. Vulgarização.

Até que enfim se encerra este período eleitoral ao qual, particularmente já estava aborrecido, não em relação à política, mas aos caminhos tenebrosos que ela sempre percorre.
Foi com muito pesar que cheguei a conclusão de que não tinha uma opção satisfatória em termos de candidatura. Já basta o tipo de afirmação do tipo: "escolher o menos pior" ou coisa parecida. Não, definitivamente não sou um alienado sobre política, apenas não sou um cientísta político, mas conheço os quesitos primordiais para se viver em sociedade, aliás, política deriva do termo grego polis (πολις), que significa cidade, entendida como a comunidade organizada, formada pelos cidadãos (no grego "politikos"), isto é, pelos homens nascidos no solo da cidade, livres e iguais. Ou seja, se vivo numa cidade, sou político.
Mais uma vez, como se era de esperar, as propagandas eleitorais se assemelham com as dos bancos privados, com uma narração em off ao pé de ouvido, em tom paternal, apelando explícitamente para o emocional, com imagens populistas, de um país em pleno progresso com oportunidade para todos. Os candidatos apelando para o nome de Deus sei lá porquê, pois a maioria nem compreende o que é Deus, quem é Deus ou sequer acredita que ele realmente exista. "Se Deus quiser", "Graças à Deus" se tornaram apenas expressões populares que até os ateístas e agnósticos pronunciam involuntariamente num país idólatra, cheio de crendices, superstições e pré-conceitos em relação à Deus. Quem realmente leu a Bíblia e realmente compreendeu o que alí está escrito? A maioria das pessoas criou a ilusão de que já leu por conta de versículos propagados de forma isolada, sem entender o contexto em que se encontra. Ou muitos tem na memória, os filmes bíblicos que costumam ser veiculados na tv nos feriados religiosos e de fim de ano, que ajudam a criar esta ilusão.
O que me decepciona, são os líderes de denominações cristãs se envolverem neste comércio político. Eles tem o direito de manisfestar sua postura política como cidadãos, mas eu já acho um tanto danoso usarem suas influências perante os membros das denominações as quais são líderes.

"Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." - João 18:36

Não sou contra estes líderes orientarem os membros das igrejas nas condutas sociais, afinal, todos nós estamos vivos e vivendo nesta terra e não podemos espiritualizar tudo em nossas vidas, pois existe a questão prática, do cotidiano, da cidadania. Mas o propósito das igrejas cristãs não deveria invadir outros territórios, pois como disse Jesus Cristo, o reino dele não é deste mundo, não é desta vida. Se uma igreja se diz ser do Reino de Deus ou evangélica, não deve adulterar a Água. Essa é apenas minha opinião particular e cada um tem o direito de pensar o que bem entender, inclusive ir à igreja para conseguir um carro ou uma casa como "benção".

"O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento;" - Oséias 4:6
"E Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?" - Marcos 12:24
"...pois o povo que não tem entendimento será transtornado." - Oséias 4:14

sábado, outubro 09, 2010

Henry Threadgill: Complete Novus/Columbia Recordings - Mosaic Records Limited Edition Box Set

É um alívio ver um artísta ser reconhecido antes que seja tarde, como costuma acontecer.
Henry Threadgill é um saxofonista e flautista, compositor, bandleader, arranjador, membro co-fundador da AACM, junto com Muhal Richard Abrams, fez parte de um dos melhores trios de jazz contemporâneo, o Air, ao lado do baixista Fred Hopkins e o baterista Steve McCall, colaborador dos projetos de Bill Laswell, sendo que o Material é um deles e inúmeros outros projetos. Henry Threadgill continua em plena atividade, produção e criatividade e me faltariam adjetivos para descrever mais sobre seu trabalho.
Como não sou jornalista musical profissional, não disponho de tempo suficiente para escrever o que é justo sobre Threadgill, apenas uma fração de informações que consegui em minhas pesquisas pessoais. Nos links abaixo, há um pouco mais de informações sobre Henry Threadgill, a AACM e este box de cd's.

http://www.mosaicrecords.com/henry-threadgill

http://aacmchicago.org/henry-threadgill

segunda-feira, outubro 04, 2010

Improvisação Livre, improvisação, improvisadores e "improvisadores"

Ultimamente o Brasil (mais em São Paulo), tem desenvolvido um pequeno circuito de música mais ousada, conhecida como Free Improvisation, às vezes ligadas ao Free Jazz. Ainda é um espaço microscópico, mesmo dentro do circuito cultural metropolitano, mas já desenvolveu um intercâmbio com grandes músicos do cenário mundial como: Phil Minton, Veryan Weston, Mark Sanders, Trevor Watts, Hans Koch e já passaram por aqui, Peter Brötzmann, Han Bennink e Michael Moore (numa situação bizarra com a Mantiqueira?!), Art Ensemble Of Chicago, etc. Alguns grupos e músicos individuais iniciaram seus trabalhos com muita dificuldade no início da década de 2000 e continuam lutando para manter viva esta música.
O grupo Abaetetuba foi o pioneiro na improvisação livre coletiva e músicos como Marcio Mattos (radicado na Inglaterra) e o suiço Thomas Rohrer participaram deste projeto, que surgiu dos encontros de Antonio Panda Gianfratti e Yedo Gibson. A maioria de seus membros está "exilada" na Europa: Rodrigo Montoya faz parte da London Improvisers Orchestra e outros projetos, Yedo Gibson e Renato Ferreira na Holanda com a Royal Improvisers Orchestra e outros projetos e já
possuem o reconhecimento de seus talentos e arduo trabalho e dedicação à música no seu estado mais puro como arte.
Também tem surgido uma nova geração de músicos interessados em Free Jazz e Free Improvisation, assim como um pequeno e até significativo público interessado nesta metrópole totalmente desordenada e cheia de paradoxos. Poucos são os meios de divulgação e informação em termos de mídia produzidos em São Paulo e se não fosse o ilimitado acesso da world wide web, que possibilita todo o tipo de informação e intercâmbio com o cenário mundial destes estilos musicais, estariamos em uma situação miserável em termos de cultura.
Infelizmente os meios mais acessados de informação, inclusive digital, pecam no conhecimento mais abrangente em relação a música livre e ainda vemos pessoas emitindo informações cheias de equívocos e opiniões pessoais que não deveriam ultrapassar as conversas informais com amigos.
Até o circuito de música independente, que teve seu apogeu nos anos 90 com o fenômeno artificial e sintético do Grunge, é até hoje amorfo, prostituido de seus ideais (se é que ainda existe algum ideal no sentido mais poético). Então por essa precariedade do circuito underground, o Free Jazz e a Free Improvisation acabam circulando pelos mesmos espaços, não que isto seja negativo.
O problema reside num problema que remete à raiz educacional e cultural deste país. O improviso ganha um sinônimo de despreparo e estes estilos musicais são justamente o contrário disso. O verdadeiro improvisador, tanto da Free Improvisation e o Free Jazz precisa ter à mão, um vocabulário desenvolvido e um domínio razoável de suas ferramentas, e isso não quer dizer de maneira nenhuma que o músico tenha que ser um prodígio de seu instrumento.
Então encontramos alguns músicos que tem acesso sobre o assunto, mas na prática, estão longe de se enquadrarem no perfil do verdadeiro improvisador. Muitos deles conhecem nomes, gravações de artístas fundamentais, mas isso não habilita tais como improvisadores. Como a maioria do público é formada de leigos, mas abertos à uma sonoridade mais inusitada, ainda não desenvolveram a percepção o suficiente para detectarem se uma peça improvisada foi bem sucedida ou não. Um grande emaranhado de noise e clusters, performances meramente estéticas podem impressionar o novato público. Mas a peça de improvisação possui início, desenvolvimento e conclusão de uma idéia criada naquele instante, contando com o repertório pessoal de cada envolvido. É obviamente equivalente a uma conversa entre pessoas sobre determinado assunto, cada participante necessita estar ao par do assunto, conhecê-lo, para desenvolver o debate, expor suas impressões e a conversa se concluir. Caso contrário, é similar a um bate-papo de ébrios na mesa de um bar, só como pretexto entre as doses ingeridas e o estado de consciência não exige um contexto que se conclua e faça um sentido lógico.
Aos que estão interessados em desfrutar deste estilo musical no seu estado mais puro e livre em termos de arte, tanto como ouvinte ou músico, aproveite o fácil acesso à informação na midia digital, reflita nas reportagens e entrevistas dos musicos que já possuem um histórico neste campo, ouçam e comparem as performances e logo identificarão as características distintas entre este aparente emaranhado de notas e sons. É como um verdadeiro enólogo ou sommelier (sem pré-conceitos de gênero, é apenas uma comparação), que sabe distinguir as suaves diferenças entre as safras de uvas, sabor, qualidade de um vinho. Só que na música, não é recomendada a moderação na quantidade de doses, pois quanto mais, melhor se apura, ao contrário do vinho que quanto mais doses, diminui a percepção. Aprecie com moderação.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Encontro Musical de Free Improvisation Internacional - 01/10/2010


























Veryan Weston
- piano
(Inglaterra);
Trevor Wats - saxophone (Inglaterra);
Thomas Rohrer - rabeca (Suiça);
Antonio Panda Gianfratti - percussão (Brasil)


Local:
Buchanan's Lounge by Ranieri
Alameda Lorena, 1221 - Jardim Paulista, São Paulo
Dia e horário:
Nesta sexta-feira, dia 01 de Outubro às 20:30h

sábado, setembro 25, 2010

Arthur Doyle & Sunny Murray - Dawn Of A New Vibration (2000)

Mais um encontro histórico da música livre registrado entre dois grandes artístas. Arthur Doyle e Sunny Murray possuem muitos pontos em comum que vai além do território musical. Ambos passaram por muitas dificuldades e injustiças sociais, não que outros não tenham passado, mas vários fatos de suas vidas deixaram profundas cicatrizes na alma e no espírito.
Arthur Doyle permanece como um nome obscuro mesmo dentro do restrito cenário underground, do free jazz e ele mesmo não faz questão de reverter este quadro, preferindo se dedicar ao que realmente importa, fazer sua música, mesmo que isso lhe proporcione uma vida difícil. Sunny Murray é um exilado de sua terra natal, pois sabia que poderia acontecer se permanecesse nos EUA. Ambos tem o devido reconhecimento justamente em outro continente e isso não é novidade, pois seus antecessores tiveram que imigrar para Europa por um período para ter um mínimo de dignidade como artístas, como foi o caso de Duke Ellington, Max Roach, Dizzy, etc. Murray e Doyle tem participado do constante movimento da improvisação livre européia, que apesar de restrito, se mantém firme. E tem sido muito gratificante o encontro destas duas linguagens em encontros que muitas vezes se realizam em duos, tanto de Doyle e Murray com os improvisadores europeus.
Em Dawn Of A New Vibration encontramos um clássico de Murray, Giblets e Nature Boy, autoria de Eden Ahbez, composta em 1947 e se tornou um standard do jazz e da música popular depois da versão de Nat King Cole e que faz parte do repertório de Doyle.
Este formato em duo, em que um músico executa os sopros e o outro a percussão, resulta em um espectro muito amplo de liberdade sonora em particular. Para quem apenas tem como referência o Interstellar Space de John Coltrane e Rashied Ali, já está mais do que na hora de conhecer outras gravações tão maravilhosas quanto esta. Este formato se renova a cada geração como no caso do encontro de duas gerações, nos casos de Milford Graves e David, Murray, Chris Corsano e Paul Flaherty, Ken Vandermark e Paul Lytton, por exemplo. Clique na imagem do post para acessar o arquivo e conhecer mais um pouco da arte de Arthur Doyle e Sunny Murray.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Arthur Doyle - No More Crazy Women

Em sintonia com o blog Free Form, Free Jazz de Fabricio Vieira, este blog dedica um espaço à Arthur Doyle que é um artísta digno de respeito e conhecer seu trabalho, é uma rica e gratificante experiência musical.
Realmente é muito tacanho se deparar com os mesmos artigos de sempre, inclusive na midia digital, sobre o free jazz ou a música mais ousada que teve início no fim dos anos 50 sob a fundação nominal oficial de Cecil Taylor e Ornette Coleman. Com tantas ferramentas para acessar quase todo o tipo de informação, ainda frequentam nomes mais do que "manjados" ou digeridos nas pequenas rodas de conversa sobre este tipo de música em São Paulo, ou seja, gravações de John Coltrane e Pharoah Sanders dos anos 60, Art Ensemble Of Chicago, quando não muito, Peter Brötzmann. Parece um sintoma das recentes apresentações destes artístas por aqui. Um amigo ligado ao ramo do comércio cadavérico do formato LP de vinil, me relatou que a procura por material de certos artístas, que até acumulavam poeira nas prateleiras, acabam sendo solicitados por conta destas recentes performances. À alguns anos atrás, podíamos comprar discos de Trane, Pharoah, Sun Ra, AEOC, por preços que não pagavam uma pizza de mussarela de entrega à domicílio. Bem, vamos ao que interessa.
Arthur Doyle é mais um dos renegados músicos do free jazz e consequentemente do verdadeiro underground. Até hoje permanece na obscuridade, mesmo com a ajuda de nomes conhecidos como o Thurston Moore do Sonic Youth. O interessante é que Doyle se envolveu com o pós-punk e a cena No Wave de New York, que tem nomes bem conhecidos, como Brian Eno, Arto Lindsay, Elliot Sharp, Lydia Lunch, Glenn Branca (e sua orquestra de guitarras em que os membros do Sonic Youth se conheceram), etc. Este envolvimento de Doyle gerou o grupo The Blue Humans em parceria com o guitarrista Rudolph Grey, que tocou no grupo Mars, ligado diretamente ao cenário No Wave, que também teve a participação do baterista Beaver Harris, que acompanhou por um bom tempo, Archie Shepp, Charles Gayle, outro músico que passou maus bocados, também colaborou com o The Blue Humans e Thurston Moore.
No More Crazy Women tem esta ligação com a No Wave de New York, como se percebe nas manipulações de sampler entre as músicas executadas pelo trio formado por Rashied Sinan na bateria e o baixo de Wiber Morris. A sonoridade do saxofone de Doyle é marcante e original, aliadas ao seu canto, explode em lirismo e força primal. Anos atrás, Doyle uniu forças com o exilado baterista Sunny Murray, sim, o pai da bateria do free jazz (o qual o tenho como grande influência na concepção do instrumento) e gravaram um belo disco e fizeram apresentações na europa. Já está mais do que na hora de conhecer o trabalho de Arthur Doyle e uma pequena parte desta arte você pode acessar clicando na imagem acima. Aprecie à vontade, sem necessidade de moderação. Ah, a capa é responsabilidade da grande artísta multimidia Cindy Sherman.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Rouge no Dengon - Yumi Arai (Kiki's Delivery Service theme)


video

Lyricist/composer/arranger/singer: Yumi Arai (Yumi Matsutoya)
Japanese title: 魔女の宅急便
Japanese title (romanized): Majo no takkyubin (Witch's Delivery Service)
Director: Hayao Miyazaki
Original work: Eiko Kadono
Release date: 29/07/1989 - Studio Ghibli

quinta-feira, setembro 16, 2010

Abiodun Oyewole - 25 Years (1995)

Abiodun Oyewole é o outro remanescente do grupo Last Poets, responsável pelo que se conhece de rap hoje em dia. Muitos teóricos, principalmente os paulistanos que surgiram no início do séc.XXI nem tomavam conhecimento deste grupo de poetas do rítmo que atravessou décadas, com suas rimas acompanhadas de diminuta percussão. Não havia toca-discos e muito menos samplers para pano de fundo como é hoje em dia. Oyewole diz no último disco sobre o nome Last Poets: "No time for the bullshit rap". A poesia ritmada perdeu em muito para os malabarismos de palavras e bases feitas por produtores que tomaram o lugar dos dj's (quando dj era aquele que tinha a habilidade de tranformar um toca-discos em instrumento musical e não esta febre de dj's de ocasião que encontramos aos montes por aí, que mau sabem mixar uma música com a outra), claro que existem os casos que fogem à regra de mercado, como Mike Ladd e outros poucos, mas em muito se perdeu de seu frescor, qualidade poética e o último respiro de criatividade realmente inovador se deu no fim dos anos 80 e início dos 90, com grupos como De La Soul, A Tribe Called Quest, Arrested Development, etc. Dizem que o rap brasileiro vai bem e de vento em popa, mas eu tenho as minhas ressalvas. Mas não vou entrar no mérito desta questão em respeito ao meu vizinho que foi um dos fundadores do que se chama rap em São Paulo, Jr. Blow e seu Stylo Selvagem.
Abiodun Oyewole tem uma métrica agressiva e simples, conhecida como spoken word e que muitos atribuem somente a Gil-Scott Heron, mas o Last Poets foi pioneiro como precursor do formato de grupo de rap. Em 25 Years, Oyewole declama sua poesia crua mas cheia de sabedoria sob a sofisticada produção de Bill Laswell e seus colaboradores, como Henry Threadgill, que foi saxofonista do trio de free jazz Air, ao lado do baterista Steve McCall e o baixista Fred Hopkins e também além de compositor e arranjador, foi um dos membros originais da AACM. Também fazem parte desta colaboração, seu parceiro Umar Bin Hassan, também membro do Last Poets, os percussionistas Don Babatunde e Aiyb Dieng, o trompetista Ted Daniel e o guitarrista Brandon Ross, nomes que soam desconhecidos no meio comercial e superficial do que chamam jazz nas grandes mídias, mas produzem uma arte exuberante.
25 Years se trata de uma arte atemporal, que une o ancestral e o contemporâneo, o urbano e o tribal, a dureza da realidade das ruas e sua desigualdade social e a beleza da arte. Clique na imagem da capa do disco para acessar o arquivo.
 
 
Studio Ghibli Brasil