terça-feira, fevereiro 10, 2009

Milford Graves

Até pouco tempo atrás, este nome era desconhecido no Brasil e inclusive no mundo. Lembro-me que à 10 anos atrás, só ouvia falar de Graves em publicações especializadas estrangeiras, de suas gravações com Albert Ayler e o lendário New York Art Quartet. Dentro do contexto de uma sessão de improvisação de Free Jazz ou uma composição, não identificava tantas diferenças nos aspectos percussivos da bateria para cada músico. Mesmo músicos que possuem personalidades bem distintas, como o pioneiro Sunny Murray, Andrew Cyrille, Denis Charles ou Steve McCall, existia um, digamos, certo "padrão" em seu melhor sentido, nas gravações e performances do Free Jazz norte americano nos anos 60. Talvez de um modo bem simplório poderíamos detectar pelo menos no timbre uma diferença mais destacada no som de Graves, uma sonoridade mais fragmentada do que a maioria dos bateristas, mesmo em comparação à Sunny Murray, a ausência do som da esteira na caixa, o timbre mais seco, pois Graves não utiliza pele de retorno em toda sua bateria. Percebe-se que alí não está diretamente ligado às tradições da bateria no Jazz. Tem muito mais ligação com os tambores tocados com as mãos, outros instrumentos de percussão, padrões rítmicos fora do Jazz. Graves acabara de lançar seu disco solo pela Tzadik, o Grand Unification e uma entrevista sua que fora publicada numa revista específica para bateria e ele falava sobre esta gravação. Fiquei interessado nas suas concepções sobre percussão, mesmo que algumas me parececem absurdas, como cura pelo som dos tambores e física quântica. O Grand Unification ele dizia ser a junção de todas essas teorias e conceitos sintetizadas nesta gravação. Por oportunidade lá estava o cd de Graves jogado na prateleira da Fnac, com um preço bem alto e um nome desconhecido. Como já ouvia falar do talento espantoso de Graves, não temí comprar o disco e não sentí a necessidade de ouvir antes de comprar. Realmente foi um grande impacto, pois Graves é um verdadeiro artísta e se doa à música e isso se reverte em um trabalho extremamente tocante. Sua capacidade é surpreendente, que não parece que ele está fazendo tudo aquilo sozinho. Graves tocando seus tambores e pratos parece uma tempestade, uma avalanche. Alí eu percebí suas raízes, das quais ele dissera em sua entrevista: a música cubana. Milford Graves tocava congas e timbales, em sua juventude tocava em uma banda de salsa com Chick Corea, gravou com Montego Joe. Em suas gravações se percebe a utilização dos padrões rítmicos cubanos e consequentemente africanos mesmo em uma peça tão "abstrata". Graves também disse que não se interessava pela bateria no Jazz por achar monótono o jeito de tocá-la, até que ouviu Elvin Jones com Trane, tocando My Favourite Things, onde descobriu mais liberdade rítmica, pois esta composição é uma valsa em 5/4, com as divisões modernas que tomaram forma com Kenny Clarke. Posteriormente a cultura oriental teve grande influência na vida de Graves, estudou tabla em 1965 com Wasantha Singh, se tornou mestre em artes marciais, herbalista, acumputurista. E lógicamente isso refletiu em sua maneira de fazer música, tanto que isso está evidente na gravação Grand Unification. Essa mudança é nítida se compararmos suas gravações com Ayler e New York Art Quartet como também sua Percussion Ensemble com Sunny Morgan e o Dialogue Of The Drums, com Andrew Cyrille. Sem dúvida Milford Graves é um talento único na percussão.

Ouça Milford Graves com o New York Art Quartet

3 comentários:

Vagner Pitta disse...

esta é a descrição que eu precisava pra efetivar meu entendimento da peculiaridade desse grande precussionista. Mais ou menos a um ano e meio atrás , quando comecei a escutar free jazz desenfreadamente, eu percebi que Milford Graves tinha muitas peculiaridades que eu ainda não era capaz de delimitá-las...acho que cheguei até perguntar dele pra vc em alguma conversa na comunidade ou no soulseek...enfim, hoje eu seria capaz de definir mais claramente, mas essa sua definição me deu um entendimento direto e definitivo...sobretudo nessas partes que disse:

"Talvez de um modo bem simplório poderíamos detectar pelo menos no timbre uma diferença mais destacada no som de Graves, uma sonoridade mais fragmentada do que a maioria dos bateristas, mesmo em comparação à Sunny Murray, a ausência do som da esteira na caixa, o timbre mais seco, pois Graves não utiliza pele de retorno em toda sua bateria

Abraços

Vagner Pitta disse...

...ah detalhe: minha introdução na sonoridade de Graves foi no disco Real Deal com David Murray e In Concert at Yale University Volume 1 (1966) com Don `Pullen

preciso voltar a ouví-lo!

akirarw disse...

Uma outra boa opção é a gravação de Graves em duo com Zorn, da série 50th Birthday Celebration.

 
 
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