domingo, março 01, 2009

Galeria do Rock, templos mortos


Em um artigo publicado neste domingo no jornal, Marcelo Tas considera a Galeria da rua 24 de Maio que tem entrada pela av. São João, como um "museu" vivo da cultura de rua. O prédio do Shopping Grandes Galerias, criado em 1963 por Alfredo Mathias se tornou a Galeria do Rock nos anos 80. Não haviam tantas lojas e não eram muitas pessoas que frequentavam o local, pois naquela época era muito arriscado ir ao centro de São Paulo, quando as calçadas eram tomadas pelo comércio ambulante e os notórios "trombadinhas". Dentro da galeria ainda havia o perigo de conflito com os grupos de headbangers(metaleiros), punks e skinheads(carecas). Mas onde se dava a concentração de headbangers era na frente da Woodstock discos, situada na r. Dr. Falcão, ao lado do metrô Anhangabaú, onde aos sábados, dezenas de headbangers se encontravam para conversar, trocar recortes de materias de revistas especializadas, fitas k7, comprar discos e adereços de heavy metal, assistir videos em vhs na pequena tv que tinha instalada no interior da pequena loja. Já na metade dos anos 80 começaram a abrir lojas especializadas em heavy metal e punk com maior número na Galeria 24 de Maio e o público que frequentava a Woodstock também foi para lá. Só que não eram exclusivos do local, tendo que dividir espaço com os punks e skinheads, gerando tensão no local e confrontos, que em algumas vezes acabava até em homicídio. Com a chegada do Grunge, que impulsionou a parte financeira e reativou o mercado do rock pesado, isto levou ao surgimento de novos investidores de olho nesta fatia do mercado que até então era desprezada. O número de lojas triplicou e levou a administração das Grandes Galerias investir em melhorias no imóvel que estava em péssimo estado de conservação. De uma hora para outra havia iluminação nos corredores, escadas rolantes funcionando e seguranças e até piso encerado. O público que era composto só por membros de "tribos" e gangues, começou a dar espaço a pais acompanhando seus filhos que ingressavam no universo underground do rock.
Hoje em dia, com as facilidades da internet e os downloads de mp3 e vídeos, os preços abusivos da indústria fonográfica e é claro, o tiro no pé da própria comunidade underground que se recusou a sustentar a sí própria, junto da crise financeira, causou o fechamento de muitas lojas que não tinham como arcar com o aluguel abusivo que a administração da galeria impunha aos lojistas, querendo se aproveitar do "status" da galeria. Outra medida que derrubou a frequencia do público na galeria do rock, foi a proibição do público usufruir do espaço de convivência do imóvel, ou seja, era proibido ficar conversando, se reunindo nos corredores largos da galeria, só era permitido ficar dentro das lojas. Consequentemente isso afugentou o público, pois os lojistas não queriam também que as pessoas ficassem na loja, que já tem um espaço reduzido, sem comprar nada e atrapalhar uma possível venda. Então outros tipos de comércio tomaram força e foram preenchendo espaço.
Me lembro que eu e meus amigos quando frequentávamos a galeria, brincávamos dizendo que alí era a Meca do Rock, pois pessoas de vários estados e até países vizinhos ìam pelo menos uma vez para lá. Ainda bem que os rockeiros não chegaram ao ponto extremo como grupos religiosos. Imagine proibirem o pessoal de ir à Meca ou ao Muro das Lamentações...
Eu não creio que o termo "museu vivo" seja o mais adequado, pois a Galeria do Rock de hoje em dia o que sobrou, foi uma fotocópia desbotada e pouco nítida de uma era que se foi. Se o conceito usado se refere ao que muitos museus eram e outros ainda são aqui no Brasil, aí eu concordo, onde as peças, obras, documentos arquivos estão deteriorando, muitos já se perderam, não há uma manutenção, jogados ao descaso.

9 comentários:

Nomeansno disse...

Virou shopping center para se comprar um estilo. Adquirir roupas e uma identidade passageira, cortes de cabelo, qualidade a desejar de certos produtos, fora os novos ''empresários'' coreanos ching ling que dominam o térreo. Infelizmente, o fim do underground e a iniciação aos novos roqueiros que só querem fazer estilo pra impressionar. Nada mais é tabu, é so baixar o mp3 na net ir nas baladas e shows, comprar a roupa e já era: nasce um roqueiro instantaneo modista.

akirarw disse...

Os comerciantes coreanos e chineses sempre estiveram na galeria, muitos até antes das lojas de rock. O aumento deste comércio só foi possível por questões de oportunidade e também pela mudança de hábito de consumo.
Quanto ao modismo, isso sempre existiu, desde os tempos de fita k7 e zines de fotocópia. O underground é o único culpado de sua própria deterioração, pois como o tolo que edificou sua casa sobre a areia, veio a tempestade e derrubou a casa porque não tinha um fundamento sólido.

Lucas Ramirez disse...

Faz alguns meses que não vou a galeria, lembro de ter reparado no movimento das lojas, os preços dos cds não mudaram muita coisa apesar da avalanche dos mp3 (normalmente um fenômeno assim tende a fazer baixar os preços), as lojas que trabalham com cds estavam (a maioria) vazias, ou com pouquíssimos clientes! Eu entendo que álbuns importados custam caros pra eles, tanto que muitas vezes, dependendo do que for, pedem uma, duas cópias... a saida é difícil!
Mas isso porque? Porque antes não havia divulgação em rádios, revistas, canais de tv, nem que seja a cabo, de uma porção de coisas! Os mp3 são ótimos para se conhecer muitas boas bandas que sequer sabiamos que existia, o mundo troca cultura com uma velocidade impressionante, o que faz(deveria pelo menos) com que o cliente se estimule a gastar algo em torno de 60 á 80 reais em um cd, pois agora ele conhece o som! Gastar esse valor, que não é barato (pra mim particularmente) "as cegas", no intuito de conhecer alguma banda é meio difícil! Pois é, nós nos conformamos com os arquivos, afinal é de "graça"...
mas a que custo? Tá eu sei, "o mundo se moderniza, avança, as coisas são assim, as pessoas tem que se adaptar", etc. Mas que da dó de ver isso dá... ou não? Bom sei lá... eu tirei os links de download do meu blog por causa disso, queria colocar alguns "players" com as faixas dos cds e abaixo, divulgar gratuitamente as lojas menores, alguém sabe como fazer para colocar um player no meu blog?
Valew, fiquem com DEUS!!!

akirarw disse...

Obrigado por visitar o blog. Antes o pessoal como eu fazia, ficava na fita k7. Ainda tenho uma centena de fitas que eu fazia a capinha. Agora a fita k7 digital é o mp3, mas quem pode, vai comprar o cd mesmo podendo fazer download. Agora sobre os preços de cd's, isso não é bem assim, pois eu trabalhei numa loja de cd's na galeria e eu fazia as encomendas e a margem de lucro era bem exagerada. Um cd no catálogo custa na média de U$10 e não precisa chegar à R$60, pois no comércio em geral a margem de lucro costuma a ser praticada até no máximo 30% de acréssimo do preço final ao consumidor. Aqui ainda persiste a mentalidade de tudo ser caro, lucrar o dobro do que gastou de investimento, por exemplo, se o disco é duplo, é o dobro do preço de um disco simples.
Agora sobre o player, o serviço deve oferecer um link em HTML para vc colar no blog. geralmente vc vai na página de modelo que está em HTML e vc encontra um espaço e cola. Existe um software gratuito que acho que se chama Firebug onde se pode indentificar onde se encontra cada elemento da página.

Lucas Ramirez disse...

Opa, valew fiu!! Vou mexer com o blog nas férias, ai eu do uma procurada no player, valew mesmo! É mesmo? A margem de lucro deles é tão alta assim? Nossa, já cheguei a ver cds em vitrines que, depois de um bom tempo, quando retorno, continuam por lá! Talvez eu esteja enganado, mas se bobear, com o mesmo preço iclusive! Se for assim... mas talvez isso tenha uma explicação: Ja conversei com um lojista sobre o aluguel e ele me disse que é uma paulada! Pode ser esse o problema... não sei se é preço justo pelo ponto, mas isso atrapalha bastante, imagino. Vc que ja trabalhou lá, lembra se isso era problema pra eles?

akirarw disse...

Eu creio que também é a mentalidade de lucrar com poucas vendas, ao invés de lucrar na quantidade. Bom, agora tem um assunto pra lá de excluso, teve uma loja que no começo dos anos 90 quis praticar preços bem mais baixos e a liderança de outras lojas da galeria foram ter com esse novo lojista e disseram para ele aumentar o preço dos cd's porq estava atrapalhando eles. E por incrível que parece o dono da loja teve que ouvir uma frase que se ouve em filmes, como: "acidentes acontecem...". Algo aconteceu com uma distribuidora chamada Low Life, que era na Faria Lima e se mudou pra galeria e vendia bem barato. Não deu um mês e aquela loja foi assaltada à noite e eles quebraram.

Lucas disse...

Aff, os grandes querendo controlar os pequenos... parece até máfia!
Isso não é rock'n'roll :(

Gαв૨i૯ℓ disse...

existe um Blog excelente de Downloads com esse nome

http://galeria-do-rock.blogspot.com/

akirarw disse...

Obrigado pela visita ao blog e pelo link.abs

 
 
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