sábado, janeiro 29, 2011

Archie Shepp - For Losers (1971)

Talvez esta gravação não tenha escapado das duras palavras de Leroy Jones (Amiri Baraka), como aconteceu com New Grass de Albert Ayler, pois Baraka certa vez afirmou que Shepp era uma espécie de traidor do free jazz. Para quem pensa que esse negócio de traidor do movimento era só coisa dos punks e headbangers dos anos 80, eis o ferrenho "bedel" da causa proferindo suas advertências nos conflituosos anos 60 do séc.XX.
For Losers é composto de três sessões de gravação, duas entre Agosto e Setembro de 1968 e a última em Fevereiro de 1969, sendo que Stick 'em up (com a bela voz de Leon Thomas) e Abstract tem laços com a chamada Soul music. As baladas I Got It Bad e What Would It Be Without You antecedem Un Croque Monsieur (Poem for Losers), que lembra mais seus trabalhos anteriores, como no Festival Pan-Africano na Argélia. Mas independente do que Baraka disse ou diga de Shepp, For Losers é uma gravação de qualidade e mesmo que Shepp tenha uma carreira irregular, com muitas gravações dispensáveis, já tem o merecido reconhecimento de sua valiosa contribuição para a música afro americana. Clique na imagem para acessar o arquivo.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Skinny Puppy - Tin Omen(1989)/Worlock(1990) - singles

O Skinny Puppy nasceu em 1982 na cidade de Vancouver, no Canada por cEvin Key (Kevin Crompton) e Nivek Ogre (Kevin Ogilvie), lançando sua primeira gravação em 1984 com o k7 Back In Forth, formando um estilo que se convencionou a chamar de dark electro-pop, que conquistou um número considerável de apreciadores. O grupo também ficou conhecido pela polêmica gerada em suas temáticas, que foram muitas vezes confundidas como apologias às experiências com animais vivos, tortura e satanismo.
No final dos anos 80 o grupo contou com a participação de Al Jougensen do Ministry, que influenciou na sonoridade do Skinny Puppy, re
sultando em um de seus melhores trabalhos, o disco Rabies de 1989. Tin Omen e Worlock fazem parte de Rabies e aqui estão os dois singles. O nome da música Tin Omen é uma referência ao massacre de Tianmen, provincia da China em 1989 e também ao massacre em My Lai, no Vietnã em 1968 e o massacre de Kent State na universidade de Ohio em 1970. Worlock possui samplers das guitarras de Helter Skelter dos Beatles e a voz de Charles Manson cantando a mesma música. O seu video possui várias imagens de filmes de terror, como: Deep Red, Suspiria, Tenebrae, Dune, Phenomena, Opera, The Beyond, Hellraiser II, Bad Taste, Dead & Buried, Luther The Geek, Henry: Portrait of a Serial Killer, From Beyond, Death Warmed Up, Eraserhead e Altered States, como um protesto contra a Motion Picture Association of America (MPAA) que censurava estes filmes como X-rated. O R na capa do single é uma alusão à classificação da MPAA. Clique na imagens para conferir os remixes.

G.B.H. - City Baby Attacked By Rats (1982)/City Babys Revenge (1984)

Quem gosta de punk e hardcore e não gosta de G.B.H., precisa rever seus conceitos mas gosto é gosto e tudo é possível. Esta banda inglesa se formou em 1978 pelo vocalista Colin Abrahall, o guitarrista Colin "Jock" Blyth, o baixista Sean McCarthy e o Andy " Wilf" Williams, sendo pioneiros do que se chamou English Street Punk, ao lado de bandas como Discharge, Broken Bones, The Exploited e Varukers. É impossível não associar o punk a esse cenário de bandas inglesas, que também tiveram grande influência aqui no Brasil. Nos anos 80, quem não se deparou com alguém usando uma camiseta, bottom, patch do G.B.H.? Muito do que foram as bandas e o visual punk dos anos 80 no Brasil, se deve ao G.B.H. Fora a integração do punk com o heavy metal e sempre se encontravam membros de bandas como Metallica, Exodus, Slayer, etc, usando camisetas destas bandas. Aliás isso sempre foi uma coisa comum e normal, só aqui se criou um conflito entre headbangers e punks, mas isto foi um aspecto de uma tamanha estultice, que deve ser ignorado.
O nome verdadeiro desta banda é Charged G.B.H., que deriva do termo Grievous Body Harm, usado na lei criminal inglesa sobre as transgressões das sessões 18 e 20 do Artigo 1861, Contra a Ofensa Pessoal, ou seja, agressão mano!
City Baby Attacked By Rats e City Babys Revenge são clássicos do hardcore punk e lá se encontram músicas bem conhecidas, como Boston Babies e Sick Boy. Diferente da temática da maioria das bandas norte americanas, os punks europeus tratavam de assuntos de uma forma mais séria, com muito menos humor. Também naquela época ainda existiam os resquícios pós-Segunda Guerra Mundial e a possibilidade de uma Terceira Guerra polarizada entre E.U.A. e a extinta U.R.S.S., que era um assunto mais evidente das bandas da Escandinavia. Clique nas imagens para acessar os arquivos e relembrar a criatividade e qualidade desta banda, pois hoje em dia o sufixo "core" está associado à coisas tão díspares como, bem, você sabe...

quinta-feira, janeiro 27, 2011

AALY Trio + Ken Vandermark - Stumble (1998)

Sem dúvida este é um grande encontro com os dois saxofonistas mais significativos da atualidade: Ken Vandermark, de Chicago e Mats Gustafsson da Suécia. Inclusive ambos nasceram em 1964 e compartilham de diversos projetos em comum, numa frutífera parceria que integra os cenários do free jazz e free improvisation nos EUA e Europa. Mats, assim como Ken, possui um perfil desbravador da nova geração de improvisadores do saxofone, oriundos do jazz, mas rompendo as barreiras estilísticas, avançando em territórios que vão muito além do cancioneiro tradicional popular, conhecidos como standards. Ambos trafegam com liberdade nas esferas do rock, música experimental e o jazz, obviamente. São músicos de características bem distintas entre sí, que se completam ao se associarem em diversos projetos, como o Sonore e Chicago Tentet, ao lado do veterano Peter Brötzmann. O AALY Trio com os conterrâneos Peter Janson, no baixo e Kjell Nordeson na bateria, foi digamos, como o Vandermark 5 de Ken, embora não tenha a longevidade do V5, que continua sendo uma espécie de ponto de partida e coluna para os projetos de Vandermark.
Em Stumble Vandermark contribui com duas composições e o grupo faz uma releitura de Song For Che de Charlie Haden, na Liberation Music Orchestra, gravada originalmente em 1969.
Ken Vandermark e Mats Gustafsson são nomes essenciais na música contemporânea mais ousada e se você deseja acompanhar o que há de melhor no gênero, fique atento aos trabalhos destes dois criativos músicos do cenário atual, que tem revitalizado e inovado o free jazz e free improvisation de uma maneira única e especial. Clique na imagem para acessar o arquivo.
Para saber mais:
http://matsgus.com/
http://www.kenvandermark.com/

Adrenalin O.D. - Humungousfungusamongus (1986)

Um clássico do hardcore norte americano, Humungousfungusamongus de 1986, é um dos inúmeros discos representativos no cenário da época. Formado em 1981 por membros do grupo de punk rock dos anos 70, The East Paterson Boys Choir, o Adrenalin O.D. gravou pela primeira vez na histórica compilação em k7 New York Thrash pela mítica ROIR, ao lado de nomes como Beastie Boys e Bad Brains.
A.O.D. tem como característica o rítmo acelerado e músicas de curta duração do hardcore e sua temática voltada para o humor ácido, que era comum em muitas bandas norte americanas da costa oeste do país, contrastando com as letras de cunho mais político e mais sério da maioria das bandas da costa leste do país e da Europa. Este tipo de humor pode ser comparado com as publicações Mad e National Lampoon, filmes como Porky's, National Lampoon's Animal House, etc. Com um nome tão sugestivo como Adrenalin O.D., o grupo se tornou também uma trilha sonora constante nas skate sessions, e claro, pelo seu som que compartilha da velocidade e manobras do carrinho. Clique na imagem para acessar o arquivo e go for it!

Booker Little - Booker Little and Friend (1961)



Booker Little Jr, nasceu em Memphis, Tennessee em 02/04/1938, decidindo pelo trompete aos 14 anos de idade. Em 1954, tocou com Johnny Griffin, estudou no Chicago Conservatory e dividiu um quarto com Sonny Rollins na YMCA. Sonny Rollins apresentou Booker a Max Roach e Clifford Brown. Após a morte de Clifford, voltaram a se encontrar e na época Max estava em parceria com Kenny Dorham por um curto período e em 1958, Booker faz a sua primeira gravação.
Sua história na música foi muito breve, devido à sua morte precoce, aos 23 anos, em 05/10/1961. Booker figura entre os grandes jovens talentos do seu instrumento, assim como Clifford Brown e Lee Morgan. Mas como quantidade não é qualidade, confira seus registros nestas gravações que são essenciais na história do jazz:
Como líder:
-Booker Little 4 + Max Roach (1958);
-Booker Little Quartet (1960);
-Out Front (1961);
-Booker Little and Friend (Victory and Sorrow) (1961);
Com Max Roach:
-Deeds, Not Words (1958);
-Max Roach Plus Four on the Chicago Scene (1958);
-We Insist! – Freedom Now (1960);
-Percussion Bitter Sweet (1961);
Com Eric Dolphy:
-Far Cry (1960);
-At the Five Spot (1961);
Com John Coltrane:
-Africa/Brass (1960);
Com Abbey Lincoln:
-Straight Ahead (1961).
Booker Little and Friend foi sua última gravação, pouco antes de seu falecimento, posteriormente relançado como Victory and Sorrow. Clique na imagem para acessar o arquivo.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Melvins - Ozma (1989)

O trio Melvins contava com Buzz Osborne, nos vocais e guitarra, Dale Crover, na bateria e vocais de apoio e Lori "Lorax" Black no baixo, na gravação do lp Ozma de 1989. Lori é filha da famosa atriz infantil Shirley Temple, mas não permaneceu por muito tempo no trio. A formação original de 1983 era composta por Mike Millard na bateria e Matt Lukin no baixo, em Montesano, Washington. Lukin logo depois faria parte do Mudhoney. O Melvins começou tocando covers do Cream e Jimi Hendrix, passando pelo estilo hardcore punk e sofreu grande influência do Black Flag que mudou o estilo para um andamento mais lento, nitidamente influenciado pelo Black Sabbath. Outras influências importantes para o Melvins foram o Flipper e Swans.
Certamente o Nirvana foi o que foi devido ao Melvins e isso é muito claro em Bleach. Kurt Cobain se inspirou muito no trio de seu colega de escola para forjar o som do Nirvana. O Melvins também é proclamado como pai do stoner rock e se caracteriza pelo seu som pesado e arrastado, ou melhor, letárgico. Quando eu comprava discos pelo correio, sempre ficava curioso em relação ao Melvins, no catálogo da Boner Records, em que predominavam bandas hardcore punk. resolvi encomendar o album que acabara de ser lançado, o Bullhead, posterior ao Ozma e foi uma grata surpresa, confirmando as minhas expectativas em relação ao curto release do selo independente. Sem muito a dizer, o Melvins é um dos grupos de rock mais pesados de todos os tempos. Clique na imagem e acesse o arquivo.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Free Jazz Drummers

Com a renovação do público apreciador do chamado free jazz, da improvisação livre, notei que um nome figura unanime nos núcleos de conversas: Han Bennink. Por sua intensa atividade e criatividade, nada mais natural seu nome estar em evidência, principalmente entre o público mais jovem, que foi cativado não só pela sua musicalidade e técnica apurada, mas também pelo humor e irreverência em suas performances e sua personalidade. Han foi e é um dos núcleos percussivos da improvisação livre na Europa, mas jamais se deve esquecer de nomes fundamentais, como John Stevens e Paul Lovens, por exemplo, pois mr. Bennink não fez tudo sozinho.
Mas este post tem um cunho particular de quem vos escreve, ou seja, vou discorrer sobre os meus percussionistas preferidos neste campo de música mais ousada: Sunny Murray e Milford Graves.
Meus fundamentos de baterista englobam grandes nomes do jazz, como Buddy Rich, Art Blakey, etc, mas os que fizeram a diferença para mim, são Max Roach e Billy Higgins. E dentro do rock, o que mais me inspirou a tocar bateria: Mitch Mitchell, do Experience. Claro que vários nomes figuram, como Elvin Jones, Kenny Clarke, mas Max e Billy são os que estão mais vinculados a mim, como influência musical.
Sunny e Milford foram os que me impactaram por desmantelarem os rudimentos do jazz na bateria em um cenário extremamente amplo, mas com os elementos tradicionais expostos nitidamente, mesmo que num quadro radicalmente abstrato. As marching bands, New Orleans, etc, estão nítidos no som de Murray, enquanto todos os padrões e sessão rítmica cubana estão em Graves e consequentemente, as origens ancestrais africanas em ambos.
Murray ampliou sua pesquisa na vanguarda, no experimentalismo, nas novas técnicas, teorias e conceitos da música contemporânea e Graves ampliou para o lado ritualístico, das origens funcionais da música e o ser humano. Digamos que Sunny e Milford foram para mim, a segunda onda de impacto.
Mas porquê a foto do Han Bennink e mencioná-lo? Sinceramente, ele só foi introduzido para ilustrar o panorama percussivo da música livre e servir de contraponto sobre o assunto. Antes que surja alguma margem de equívoco, já está registrado o reconhecimento de sua importância para a música universal, mas para mim em particular, não é dos meus bateristas preferidos e não teve influência impactante. É uma mera questão de gosto musical, como existem tantos nomes que são tidos como "sagrados" e "intocáveis" para muitos bateristas brasileiros, como Jack DeJohnette, Tony Williams e Art Blakey.
Já escutei barbaridades sobre Murray e Graves por aí, que nem vale um parágrafo relatar. Mas vai se falar das limitações de um Edison Machado se não te mandam para a inquisição...
Mas toda esta polêmica é um tremendo enfado sem fim. O que vale mesmo é sempre lembrar dos desbravadores Sunny Murray e Milford Graves, que merecem mais reconhecimento.
Sunny desenvolveu uma técnica estudando junto com Cecil Taylor, no campo físico das notas musicais, das vibrações percussivas, da composição e o modo como ele conseguiu fragmentar os padrões do jazz na bateria é de uma riqueza e sofisticação única. Para quem pensa que o baterista de free jazz só bate à esmo sua bateria, sem a menor conexão, é porquê não está ouvindo atentamente o que é feito. É tudo extremamente bem integrado. Muitos falam de Rashied Ali, por sua associação com John Coltrane mas Rashied é o que é por conta de Sunny Murray.
Milford Graves veio de um lugar diferente, como eu já escreví aqui antes, da música cubana, das congas, dos timbales, dos tambores africanos, sinos e pratos do Oriente. Ele mesmo não se interessava pela bateria no jazz até acontecer a libertação do jazz. Graves me mostrou a integração mais nítida de algo que foi separado indevidamente, a percussão e a bateria. Deve-se lembrar que a bateria é um conjunto de instrumentos de percussão agrupados num "kit". A bateria tem essa ambiguidade de ser tal conjunto, como um também um único instrumento. Mas nem todo baterista é um percussionista em seu significado mais amplo e vice-versa. E Graves é um grande exemplo de possuir tudo isso dentro de uma unidade, aliado a liberdade extrema na música, bem diferente do caso de um Airto Moreira, por exemplo, que não tem esta característica de fundir estes elementos quando está num kit de bateria. Airto quando toca bateria é uma coisa e quando toca os outros instrumentos de percussão, é outra.
Sunny e Milford são as colunas principais dos fundamentos da libertação da bateria, que foi proclamada por Kenny Clarke e Max Roach anteriormente.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Tainted love - Gloria Jones, Soft Cell & Shades Apart



Tainted love foi composta por Ed Cobb do The Four Preps e gravada em 1964 por Gloria Jones. Mas só em 1981, se tornou um sucesso na regravação do Soft Cell de Marc Almond e David Ball, inspirando muitas versões, como as de Marilyn Manson, Inspiral Carpets e Shades Apart, que é uma das minhas versões preferidas e seu videoclip é muito legal. Ed Cobb e o The Four Preps pode continuar a ser um nome desconhecido, mas Tainted love é uma bela composição e devidamente reconhecida.

domingo, janeiro 16, 2011

Cine Belas Artes (1952 - 2011), descanse em paz...

Enquanto as mídias de maior audiência falam da tragédia das enchentes, outro assunto que tem ganho terreno e destaque para os paulistanos, é o fechamento do cinema Belas Artes. É um fato lamentável para a cultura de um país, mas as grandes salas de cinema nos shopping centers, aparentemente seguem bem, e até com aprimoramentos tecnológicos, como sessões em 3D, além dos serviços, como poltronas mais confortáveis, etc. Só que estes cinemas de shopping exibem o terror dos cinéfilos, os chamados blockbusters, títulos feitos pela indústria cinematrográfica para ser apenas um entretenimento, uma distração, sem a preocupação de contribuir com o que se convencionou a chamar de arte. O cinema também é chamado de sétima arte.
E o cinema Belas Artes sempre foi referência do cinema como arte, evitando ao extremo, os títulos descartáveis dos grandes circuitos de salas de projeção, resistindo com dificuldade aos novos tempos, em que, se a cultura não é um ítem supérfluo para a maioria da população, tem o significado diferente. Aí entra aquele antigo problema de educação no país, falta de discernimento, preparo e tantos outros, que não quero desenvolver aqui neste post.
Agora tratam o proprietário do imóvel em que se encontra o Belas Artes, como um criminoso, pois ele quer obter um retorno maior de investimento financeiro no seu bem material, que se encontra em um dos locais mais valorizados no ramo imobiliário. Que fique claro que eu não me alegro com a idéia de haver uma loja no lugar de um cinema que é uma das raras alternativas à mesmice dos anestésicos audiovisuais que abundam na cidade. Mas compreendo o pensamento do proprietário do terreno, ele não tem nenhuma obrigação de manter um investimento que não satisfaz suas expectativas.
Mas também existe a culpa da população que abandonou as salas de cinema, pela comodidade que surgiu com a fita VHS, depois os DVD's e Blue Ray's, alugados ou comprados, os home theaters, televisores de grandes polegadas e até projetores digitais. As pessoas, principalmente um certo setor da sociedade, também ficou com medo e preguiça de sair de casa para os cinemas. Como tem gente que não gosta de gente! Ah não ser é claro, se for "gente bonita"...
Será que o cine Marabá aguenta? Pois está localizado no centrão da cidade, a não ser que permaneça até a tão sonhada re-urbanização do centro, que almeja ter boulevards, como nas capitais européias, mas tem que sumir com a "gente feia" dalí... Tá bom...
Enquanto isso, o Marabá tem que se virar, passando alguma bobagem de cartoon 3D ou filme com artísta de novela global, para pagar as contas. Quem vai querer assistir O Sétimo Selo ou algum filme do Dogma num sabadão à tarde no centrão, com rapa, dvd do tapa olho a 5 mango, dorme-sujos, 2 cines pornozão em frente, algum nóia, invasões dos Sem-Teto, etc? Só us guerrêro, meu caro...

terça-feira, janeiro 11, 2011

In Yo' Face!: The Roots of Funk, Vol. 1/2 (1994)

Em plenos anos 90, ninguém queria saber de funk, era considerado uma coisa cafona e haviam centenas de lp's do gênero em sebos na cidade de São Paulo. Você podia encontrar um Maggot Brain do Funkadelic, Mothership Connection do Parliament por até R$1,00. Só alguns títulos tinham algum valor no comércio dos "baileiros", os dj's (nesta época ninguém queria ser dj) que davam uma trampa nos "bailes nostalgia", que rolavam pela cidade. Eu mesmo fiz minha coleção nesta época, sem gastar uma fortuna, como se viu por aí, pessoas pagando na média de R$50,00 por um disco.
Graças a uma reportagem que foi publicada num jornal sobre o lançamento do box, se não me engano de 5 cd's, In Yo' Face!, que dava um panorama geral do funk, este tipo de música foi introduzido em outras parcelas da população paulistana. Digamos que não era nada comum "gente branca" procurar por um disco de James Brown ou Sly Stone nessa época. Me lembro quando eu ia em algumas pequenas lojas de discos usados no centro, procurar coisas como Jimmy Castor Bunch e os proprietários, que na maioria discotecavam nesses bailes, como o Chic Show ou Black Mad, se surpreendiam comigo. "Mano, você curte esse som?!" Hoje em dia, é fácil você dançar na pista um Mandrill, num reduto do rock alternativo. Mas também você não encontra mais um disco do James Brown por menos de R$10,00 como antes, fora essa moda do vinil que rola nos guetos culturais da cidade.
Mas o In Yo' Face! foi de muita utilidade para mim e muitos por aí que curtem o funk dos anos 70 e o vol.1/2 eu particularmente acho que é o melhor de todos, pois mostra a transição da soul music e rhythm'n'blus na formação do funk. Lá estão clássicos como Tramp, de Lowell Fulson, Cissy Strut do The Meters, Soul Dance #3 de Wilson Pickett, etc, com aquela sonoridade robusta da época, que depois o funk perdeu no decorrer da década de 70, desbocando na disco music. In Yo' Face! é sem dúvida uma compilação bem feita e coerente, que vale a pena ouvir como material de pesquisa e referência. Clique na imagem para acessar o arquivo.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Peter Brötzmann Trio - For Adolphe Sax (1967)

Peter Brötzmann é um dos músicos mais atuantes do cenário mundial da improvisação e do free jazz, embora aqui no Brasil só se falou dele por ter se apresentado no Sesc com seu projeto Full Blast. Isto é um típico sintoma do circuito musical brasileiro, onde as pessoas não se interessam em pesquisar o abundante material disponível na net até se tornar uma "sensação", mesmo que restrita e momentânea. É a mesma situação do Ornette, Ken Vandermnark que estiveram por aqui a pouco tempo, logo ninguém mais comenta e tornam suas atenções para outra atração internacional, outro entretenimento, outro evento social. E no caso de Brö, é bem compreensível, pois sua arte é para poucos pelo seu teor radical e agressivo, como muitos na realidade consideram uma barulheira insuportável. Em termos, isso até é verdade, pois o Full Blast e o projeto anterior, o Last Exit, tem este cunho de produzir uma massa sonora que transgride o convencional, rompendo violentamente os conceitos conservadores e pré-estabelecidos de mercado, produzindo a mesma sensação de muitas obras de artes plásticas contemporâneas, em que o desavisado e desprovido de um mínimo de discernimento de arte, se sente ofendido ao se deparar com um objeto ou imagem que não se assemelha à uma escultura de Rodin ou pintura de Velasquez e sim, um amontoado de lixo ou borrão de cores disforme.
O título For Adolphe Sax é uma homenagem à Antoine-Joseph "Adolphe" Sax (06/09/1814-04/02/1894), flautista e clarinetista belga e também luthier, inventor do saxofone. Uma justa homengem ao criador do veículo de expressão artística que Brötzmann mais utiliza. O trio é composto pelo contrabaixista Peter Kowald e o percussionista Sven-ake Johansson, que foram essenciais para a formação do free jazz e free improvisation na Europa nos anos 60, ou a primeira geração deste tipo de música. A última peça, gravada em data posterior, contou com a participação do pianista Fred Van Hove. For Adolphe Sax é uma espécie de síntese resumida e introdutória da linguagem que Peter Brötzmann desenvolveria nos anos seguintes. Assim como sua arte, Brö desperta duas sensações distintas no ouvinte: ou se aprecia muito ou se abomina com convicção. Clique na imagem para acessar o arquivo e tire suas próprias conclusões, se ainda não teve contato com a música de Peter Brötzmann.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Max Roach Quartet - Live In Amsterdam (1977)

É sempre um grande prazer falar deste grande músico, o qual me fundamentou no meu instrumento musical, a bateria. A história e importância de Max Roach na música e na bateria está muito bem documentada, dispensando novas dissertações.
Live In Amsterdam foi gravado em 17/09/1977 com o tipo de formação que Max manteve até o final de sua carreira: um saxofonista, um trompetista e um baixista, ou seja, um quarteto com sonoridade bem compacta e robusta, mas jamais carente de criatividade e abundância sonora. Alguns críticos musicais ainda perdem tempo com a bobagem de dizer que usar um quarteto no jazz com a ausência de um piano é algo ousado, pois isso talvez tivesse algum sentido à 70 anos atrás, sem exagero. Desta configuração, o trompetista Cecil Bridgewater permaneceu até o fim, tanto que ele esteve presente no Brasil em 2000, ao lado do sax tenor de Odean Pope e o baixo de Tyrone Brown. Nesta gravação em Bimhuis, conta com uma importante associação entre Max e Billy Harper, brilhante saxofonista e compositor. Inclusive um clássico lhe pertence a autoria que é a peça Capra Black. Outro ilustre artísta é o contrabaixista Reggie Workman, com seu currículo kilométrico no meio do jazz, muito conhecido (me cansa dizer isso) por tocar no quarteto de John Coltrane. Workman continua em plena atividade, se associando aos improvisadores e o cenário mais livre de New York, ao lado de William Parker, etc e ter participado da reunião do New York Art Quartet de Roswell Rudd. Live In Amsterdam é uma torrente sonora com duas longas peças, dando amplo espaço para cada músico expor suas idéias e It's Time, uma das mais clássicas e conhecidas composições de Max Roach, é uma delas. O som de Max Roach e sua bateria se tornaram emblemáticos no atravessar das décadas, desde os tempos de sua parceria com Charlie Parker e Dizzy Gillespie, mas sempre se manteve contemporâneo, jamais cristalizando sua arte ou a tornando datada. Basta conferir isso clicar na imagem, acessar o arquivo e comprovar com os ouvidos, o que estou vos escrevendo aqui neste simples espaço virtual.

Vernon Reid - Mistaken Identity (1996)

Me lembro dos anos 90, quando surgiu um terrível rótulo musical chamado acid jazz. Foi mais um momento deprimente da música, pois este rótulo veio acompanhado de um estilo que incluia até estilo de vestimenta e dança, tudo englobando uma estética de consumo. Foi muito ruim, pois era um jeito de elitizar a união do hiphop, cultura popular das ruas, ao jazz que se rendeu a pressão de mercado nos anos 60, com o advento da soul music e rhythm'n'blues, que viriam a gerar o funk. Então muitos músicos de jazz embarcaram nesta fusão e claro que nem todos visavam sobreviver financeiramente nisto. Houveram momentos muito criativos com gravações de Idris Muhammad, Grant Green, Roy Ayers, Donald Byrd, etc, no meio de uma estética que a gravadora Blue Note ajudou a imprimir naquela época. Então nos anos 90 surgiram grupos, selos, revistas, grifes de roupas com o rótulo acid jazz tentando retomar parte daquela estética. No meio disso, muitos grupos de qualidade extremamente duvidosa surgiram, como Galliano, Jamiroquai, US3, Brand New Heavies, James Taylor Quartet e uma incontável lista de embustes musicais. Mas felizmente também surgiram projetos de qualidade, como o Buckshot Lefonque, Digable Planets, Jazzmatazz e o Masque de Vernon Reid. Inclusive no auge desta moda, um festival patrocinado por uma maquiavélica marca de cigarros, dedicou uma noite ao gênero, tendo como atração, o Buckshot Lefonque, Brand New Heavies e Jamiroquai. Graças a Deus o Jamiroquai cancelou de última hora sua apresentação e tive a grata surpresa de presenciar o projeto de Vernon Reid, substituindo a programação original. E lá estavam no palco: Vernon Reid, Hank Schroy, Don Byron, Curtis Watts, Leon Gruenbaun, DJ Logic e o mc Beans, despejando música de qualidade e não aquele "som de boutique" do Brand New Heavies. E o Mistaken Identity é um dos melhores momentos registrados desta época, que você pode conferir, clicando na imagem para acessar o arquivo.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Andrew Cyrille & Milford Graves - Dialogue Of The Drums (1974)

Gravado no Wollman Auditorium, Columbia University em New York, Dialogue Of The Drums é uma profunda jornada no universo percussivo do ser humano, que transcende rótulo, gênero e estilo musical. Andrew Cyrille nasceu no Brooklyn, NYC em 10/11/1953 e seu nome se tornou conhecido com sua associação à Cecil Taylor. Nos anos 70, foram intensas as atividades com o Dialogue Of The Drums, grupo que também contou com a colaboração de Rashied Ali. Definitivamente foi um grupo que contribuiu muito para a pesquisa e desenvolvimento da percussão musical, assim como o M'Boom de Max Roach. Milford Graves também nasceu em NYC, só que no Queens, em 20/08/1941. Ficou conhecido por fazer parte do New York Art Quartet e de um dos grupos de Albert Ayler. A formação de Graves não veio do jazz tradicional, como se pode notar nitidamente em sua abordagem percussiva, trabalhando até com conceitos físicos e medicinais em sua música. Graves e Cyrille também atuam como educadores musicais, lecionando em institutos e faculdades, formando uma nova geração de percussionistas. Mais um registro da música universal que dispensa qualquer tipo de comentário, que sempre não consegue descrever de forma precisa, a experiência que realmente proporciona em sua audição. Clique na imagem para acessar o arquivo e ouça o diálogo dos tambores.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Axiom Funk - Funkcronomicon (1995)

Iniciando este ano de 2011, desejando a todos que seja abençoado por Deus, escrevo este post sobre mais um projeto de Bill Laswell e seu selo Axiom: Axiom Funk - Funkcronomicon, de 1995. Definitivamente foi um projeto ambicioso, com uma multidão de ilustres colaboradores:
Bernie Worrell, DXT, Bill Laswell, George Clinton, Gary "Mudbone" Cooper, Michael "Clip" Payne, Deborah Barsha & Zhana Saunders, Bootsy Collins, Herbie Hancock, Robbie Shakespeare, Sly Dunbar, Anton Fier, Daniel Ponce, Aiyb Dieng, Edwin Rodriguez, Joe Daly, Ted Daniel, Janet Grice, J.D. Parron, Henry Threadgill, Blackbyrd McKnight, Nicky Skopelitis, Robert Musso, Buckethead, Lili Haydn, Eddie Hazel, Jerome "Bigfoot" Brailey, Garry Shider, Michael Hampton, Robbie Shakespeare, Sly Dunbar, Aiyb Dieng, Karl Berger, Menace, Maceo Parker, Bobby Byrd, Godmomma, Sly Stone, Maceo Parker, Bobby Byrd, Fred Wesley, T-Bone, Af Next Man Flip, Abiodun Oyewole, Blackbyrd McKnight, Lili Haydn, Amina Claudine Myers, Joseph "Zigaboo" Modeliste, Guilherme Franco, Torture e Umar Bin Hassan. Ou seja, foram reunidos membros de grupos como JB's, The Meters, Sly And Family Stone, Material, The Last Poets, Parliament, Funkadelic e músicos conhecidos do reggae e free jazz.
Destaque para a participação de Sly Stone, que ficou por muito tempo recluso do meio musical e estas gravações foram as últimas do guitarrista Eddie Hazel, antes de seu falecimento precoce, se tornando um disco em sua homenagem. Também há releituras muito interessantes para duas músicas de Jimi Hendrix, If 6 Was 9 e a desconhecida Trumpets And Violins, Violins.
Foram gravadas em diferentes estúdios e sessões, também pelo fato de que George Clinton não mantém boas relações com ex-membros do universo P-Funk. Mas Funkcronomicon é um belo registro da criatividade de músicos dos mais diversos estilos musicais, num mesmo projeto. Vale à pena conferir. A capa foi ilustrada pelo desenhista Pedro Bell.

Funkcronomicon cd 01
Funkcronomicon cd 02

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Combat Tour Live: The Ultimate Revenge (1985)







Sem dúvida este foi um dos presentes mais agradáveis deste ano de 2010. Sinceramente não tinha muitas esperanças de rever este homevideo que foi lançado originalmente em VHS, que era o formato disponível da época, em meados dos anos 80. Me trouxe à memória as tardes que eu passava na mítica mureta na ladeira da rua Dr. Falcão, em frente ao metrô Anhangabaú, no centro de São Paulo. Esta mureta ficava em frente da famosa loja especializada em heavy metal, a Woodstock Discos, do Walcir, que logo depois apresentou o progama de rádio Comando Metal, na 89fm. A Woodstock Discos era o grande ponto de encontro dos headbangers e dividiu esta posição com a Galeria do Rock. Lá eu fiz muitas amizadades, comprei fitas k7 de gravações dos discos importados, camisetas, os primeiros lançamentos pelo selo Woodstock. Me lembro quando tinha chegado o primeiro lote do split album do Sepultura/Overdose e lá estava o Toninho para me indicar o primeiro disco da então desconhecida banda de BH. O pessoal trocava material, como recortes de revistas e gravações, pois naquele tempo, não tinha a net e o acesso aos cd's e lp's, que vinham de fora. Era mais difícil obter material, quanto mais material em video. Quem imaginaria poder acessar um youtube e ver um videoclip em casa ou numa lan house nos anos 80? Então a Woodstock promovia sessões de video na própria loja, com uma tv de 20 polegadas no alto da pequena loja e um aparelho de video cassete. A loja ficava abarrotada de metaleiros se apertando para prestigiar os escassos videos que passavam na telinha.
Foi então que chegou a fita em VHS Combat Tour, registrando as bandas mais significativas do thrash metal da época: Venom, Slayer e Exodus. Era o auge destas bandas e era um sonho poder ver qualquer imagem delas em ação, já que era impossível assistir um show ao vivo, coisa que já ocorreu hoje em dia com estas três bandas aqui no Brasil. O máximo que ocorreu foi o show do Venom no ginásio do Corinthians ainda nos anos 80, mas foi uma grande decepção, pois o som estava péssimo, não era a formação original, enfim, quem estava lá sabe do que estou falando.
Posso dizer que Combat Tour teve o mesmo impacto de quando eu assistí pela primeira vez John Coltrane em video, tocando Impressions com Eric Dolphy. Eu não sei quem fez o rip do VHS e disponibilizou, mas eu e muitos, com toda certeza agradecemos por ter acesso à este material, depois de tanto tempo e posso dizer que o impacto é o mesmo daquela época.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Koji Morimoto: Extra - Ken Ishii music video (1995)




Koji Morimoto é um dos prediletos da casa, sempre bom ver seu trabalho.

Feed Your Head - Stargazer (1989?)

Esta incomum banda punk de Manchester, UK, formada em 1986 gravou 3 fitas demo, 2 singles e 2 lp's, tocou com inúmeras bandas como Visions of Change, Hex, Scream, Instigators, Oi Polloi, Amebix, Chumbawamba, Civilised Society, Government Issue, Thatcher on Acid, Dan, Mottek, Anti-sect, White Flag, Culture Shock, UK Subs, The Stupids,The Varukers, Electro Hippies, etc. Pouco se sabe sobre o Feed Your Head, como outras bandas que não dispunham da net para divulgar seu trabalho. O FYH era uma banda totalmente independente, tanto que o lp Stargazer foi lançado por eles mesmos sob o selo Crucial Climate, de forma artesanal, com preço desenhado na capa e endereço para correspondência.
A primeira vez que ouví o FYH foi através do Ronaldo (que por um breve período tocamos juntos no Energy Induction com o Marcos) que trabalhava perto da minha casa numa oficina de motos. Isso foi em 1989, creio que o ano de lançamento do Stargazer. O disco tinha vindo pelo correio através dos intercâmbios de Ronaldo. Foi uma das coisas mais bonitas que já ouví no punk e tinha um elemento incomum, violino. Sim o FYH incluiu este instrumento em suas canções e ele é bem executado, não é um mero enfeite, pois dá um acabamento todo especial nas músicas em que se faz presente. Já que sou incapaz de poder ajudar tantas bandas que deixaram singelos registros em sua curta trajetória e não tiveram algum reconhecimento e muitas pessoas não tiveram acesso, eu presto minha pequena e pessoal homenagem ao Feed Your Head, que deixou lindas canções e espero que alguém coloque oficialmente à disposição das pessoas envolvidas com o punk rock e também deixem um registro mais detalhado, pois com certeza o FYH merece um capítulo na história da música independente. Nos comentários.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

(ainda em tempo) ai ai ai ui ui ui!

Feliz aniversário, seu véio doido.

E finalmente Ken Vandermark passou por aqui!

Eu poderia falar de outras pessoas também, mas não pude comparecer na apresentação de Han Bennink e Phil Minton no dia seguinte ao trio Vandermark, Ex e Sanders. Phil Minton eu já tinha me encontrado tempos antes e até demos um passeio pelo centro de São Paulo, junto dos meus queridos Lauro, Tiago e Thomas que providenciaram tudo. Bennink eu só fui apresentado pelo Marcio, mas tive que sair rapidamente por outros compromissos. Para quem gosta de jetset, estava um banquete farto, grandes improvisadores alí, bem pertinho e acessíveis. É isso que as pessoas tem que começar a ver, esta comunidade mundial musical não dá espaço a escalões, nomes, celebridades e fama. Aqui no Brasil não, é tudo na base de: "Quem é você? Com quem você tocou? Você é amigo de quem?" Aí veja e ouça o que acontece por aí, um bom número de músicos que nem sempre tem a técnica que tanto exaltam e não tem um mínimo de criatividade. Lá fora não, é: "Você é criativo, vamos tocar" e só, não importa de que toca tenha saído.
Não vou comentar sobre a apresentação em sí, a não ser que foi a primeira e muito esperada vinda de Ken por aqui e sua primeira performance com Luc. Mark e Luc já se sentem à vontade em São Paulo. Três improvisadores experientes e criativos que estavam em sintonia para partir do nada naquele palco fizeram o que me parecia óbvio e simplesmente se confirmou, um maravilhoso encontro musical.
O engraçado é que eu olhava para o Ken alí tão perto extraindo o seu melhor no saxofone e não conseguia fazer analogia com o Vandermark que ví na Jazz Times, Wire, nos videos do YouTube, do V5, do Chicago Tentet, nomeado MacArthur Fellowship, etc. Parecia que eu fui ver um amigo das antigas tocar e agora mora em outra cidade e não encontrei mais. Ken Vandermark é o que você vê na foto, o mesmo sujeito de camisa xadrez, calmo e gentil, daqueles que não dava trabalho na escola, amigo de todo mundo, mas reservado. A música? Ora, ela foi absorvida e ficará na memória, não nota por nota, mas como Monet, ficará a impressão daquela noite.
Aqui deixo as palavras que o próprio postou no facebook:

Ken Vandermark
‎12/10: 1st concert in Brazil, Sao Paulo w/Mark Sanders and Luc Ex. Hard work but we got results- Luc had his bag lost by the airline, all of his pedals were in it, so he was struggling w/the bass sound, and I felt like I was struggling with my tenor all night. Fantastic audience, standing ovation and encore.
Ken Vandermark Hi Rubens- Great to meet in person finally, and very happy you and your friends enjoyed the concert in Sao Paulo- it was amazing to be there! Porto Allegre was fantastic too; I hope that I can get back to Brazil soon!
Aliás o que eu lembrarei também, é que foi um dia que encontrei muitos amigos, até tive tempo de bater um papo com o Gastão e o Massari na lanchonete, sobre Iron Maiden, Chris Cutler, John Zorn... É! Rock não é inferior ao free jazz e free improvisation (o jazz foi foi libertado e qualquer um é livre para improvisar).


sábado, dezembro 04, 2010

Ken Vandermark: entrevista

Esta entrevista foi elaborada por mim à cerca de 4 ou 5 anos atrás, por e-mail, quando iniciei meu contato com Vandermark, onde descobrí uma pessoa antenciosa, simpática e simples. Eu já tinha publicado esta entrevista no blog Farofa Moderna, mas não ainda neste blog. Em tempo de sua primeira (que seja a primeira de muitas) vinda ao Brasil, republico-a para quem quiser conhecer mais um pouco deste talentoso artísta:




1. Quando você começou a tocar já pensava em fazer esse tipo de música que faz agora?
Eu cresci ouvindo todos os tipos de música, meu pai em particular sempre deixava o estéreo ligado quando estava em casa – na maior parte do tempo jazz mainstream (Monk, Ellington, Miles Davis, etc.), e música clássica (Stravinsky, Bach), alguma coisa da Mototwn, bossa, Frank Sinatra e Sly & the Family Stone. Depois de trabalhar no trompete por alguns anos eu percebi que não conseguiria tocá-lo bem o suficiente pra fazer algo sério e mudei pro saxofone tenor aos 16 anos. De primeira tentei compor minhas próprias músicas e tocá-las com um grupo que eu organizei com meus colegas na banda do colégio. Mas a coisa começou a andar quando meu pai me apresentou o álbum "Tenor" do Joe McPhee. Nessa época (eu tinha uns 17) seu interesse em jazz estava avançando pra fora do mainstream, meu pai estava escutando mais free jazz dos anos 60 (Ornette, Shepp) e assistindo mais shows de grupos contemporâneos em Boston (Joe Morris, The Fringe -com George Garzone, Bob Guilotti, John Lockwood; Shock Exchange, liderado por Dave Bryant), assim como a música mais ousada que vinha pra cidade (Don Cherry, Shepp, The Art Ensemble of Chicago, Sam Rivers). Como sempre fazia, meu pai me levava aos concertos, mas eu tinha problemas em assimilar as idéias desses artistas mais ousados, até que ouvi "Tenor". De alguma maneira aquele álbum colocava os sons mais abstratos da música improvisada em uma construção melódica que eu conseguia seguir – foi uma epifania. Assim que ouvi a música de McPhee eu disse pra mim mesmo: é isso que eu quero fazer.
2. Quando e como você formou seu primeiro grupo? Entre os muitos grupos dos quais você participa atualmente, algum recebe atenção especial?
Meu primeiro grupo sério foi organizado enquanto eu estava em Montreal estudando Cinema e Comunicação na Universidade McGill. Era um trio chamado Fourth Stream, meio que moldado no trabalho de Ornette Coleman e Albert Ayler. Hoje em dia, ao contrário do que muita gente possa pensar, todos os grupos com quais eu trabalho tem peso igual quando eu estou envolvido. Por muitos anos o Vandermark 5 foi o mais ativo e um centro crucial pro meu desenvolvimento como improvisador e compositor, mas o trabalho que fiz com outros conjuntos, usem eles composições ou pura improvisação são igualmente importantes pra mim. Cada um me apresenta uma série de parâmetros e personalidades diferentes, me impulsionando a desenvolver diferentes aspectos da minha música. Eu não conseguiria me dedicar a só uma banda, existem muitas idéias aí fora pra serem exploradas, e trabalhar com especialistas em seus campos específicos é a melhor maneira de aprender. Além do que, por exemplo, tocar com Paul Lytton e Paul Lovens teve a mesma importância que tocar com Hamid Drake e Paal Nilssen-Love, mesmo eles sendo todos bateristas muito diferentes entre si.
3. No Vandermark 5 cada música é dedicada a alguém. Você inventou isso ao mesmo tempo em que começou o grupo? Como é processo de composição?
Eu venho tentando reconhecer o impacto de outros músicos, artistas, cineastas, escritores e amigos por muitos anos. Dedicar as peças a eles é um jeito de mandar uma carta de agradecimento, mais do que indicar que a peça é baseada em compor no estilo musical deles.Meu enfoque na hora de compor é tentar e encontrar a identidade específica de cada peça baseada nos materiais que eu crio e nos músicos que estarão interpretando. Eu espero que cada peça seja singular, usando diferentes técnicas quando necessárias pra chegar na música pronta. Eu componho pros indivíduos que estarão trabalhando em um conjunto específico. Então, por exemplo, a música da Territory Band é escrita pros onze ou mais músicos que naquele grupo – eu não poderia pegar essas partituras e dá-las pra nenhum outro instrumentista e esperar que a música funcionasse corretamente.
4. Você segue algum tipo de filosofia pra fazer sua música? Você concorda que o artista deva catalizar alguma mudança dentro da sociedade?
Se tiver uma filosofia é que eu quero que minha música seja permitida ser livre, deixá-la trabalhar com parâmetros abertos pra que eu possa usar quaisquer fontes que eu sinta serem apropriadas pra levar a música a um espaço de improvisação e composição que é independente e original. Isso significa que é aceitável que alguns ouvintes não irão gostar de todo meu trabalho, preferindo um grupo ou sensibilidade no meu jeito de tocar em tal formação. Mas eu me recuso a ser colocado em uma série de caixas ditando o que eu posso ou não fazer de um ponto de vista musical. Gosto é uma coisa, mas a necessidade da busca e o processo da arte são outras. Eu acho que artistas criam mudanças na sociedade, mas essa é uma revolução que acontece em uma pessoa de cada vez. Sendo expostos a idéias criativas, seja através de música, pintura, literatura, etc., as pessoas estão convidadas a ter experiências da realidade de maneiras diferentes, a considerarem outras possibilidades além das apresentadas a eles todos os dias na mídia de massa. Se eles abraçam essas considerações é quase impossível que seu enfoque cultural em relação à política e com sua sociedade não seja afetado. Essa mudança pode ser lenta, mas é verdadeira pro indivíduo e sua experiência.
5. Existe alguma diferença entre o Ken Vandermark artista e o Ken Vandermark cidadão? Se isso acontece, como um influencia o outro?
Eu não tenho como fazer essa separação. Minha vida informa minha música, e minha música informa minha vida. Sem meu trabalho eu não conheceria o mundo como conheço hoje, e essas experiências mudaram completamente a maneira que eu enxergo o que toco. A música pôs meu pé na estrada, e as coisas que vejo e ouço quando estou viajando, experiências musicais ou não, me levaram a novas maneiras de pensar sobre o que faço. Minhas experiências com e através da música me obrigam a re-investigar meu mundo constantemente, artística e socialmente.
6. Você acredita que ainda há algo novo a ser feito na música, ou nós vamos sempre estar descobrindo algo do passado?
Sem dúvida: sempre há algo novo a ser criado nas artes. Eu acho que a chave pra isso é ser verdadeiro em relação ao seu período cultural. Tudo que é feito hoje em dia é influenciado pelos desenvolvimentos do passado, isso é impossível de evitar, e fingir que você pode permanecer inalterado pelo impacto da história é uma construção psicológica artificial. Porém é necessário enquanto artista fazer mais do que recriar o passado, isso é inútil criativamente. É preciso construir algo individual de seus recursos, e cada pessoa tem uma série de experiências diferentes que são integradas por suas histórias pessoais: um passado cultural, sua situação social presente, suas observações artísticas, etc. Às vezes a percepção e expressão individual é revolucionária, como no caso de Ornette Coleman ou Picasso, às vezes é simplesmente pessoal, como no caso de Stan Getz ou Max Beckmann.
7. Você acredita que a música de improvisação completou sua evolução ou isso é algo infinito, como um alfabeto, que possibilita novos sentidos para as letras que nós já temos?
Pros meus ouvidos e mente as possibilidades de improvisação são infinitas. Eu não acho que jazz ou música improvisada sejam estilos, eu acredito que é um método. Esse método tem uma coleção de ferramentas internacionais, linguagens e idéias que têm sido desenvolvidas ao longo do século XX e agora no século XXI. E quanto mais ferramentas um indivíduo desenvolve, mais ele pode se expressar espontaneamente através de música improvisada.
8. Você concorda com John Zorn quando ele declara que free jazz, improv e outras vanguardas musicais em geral não vão alcançar o grande público, mas que seu público se renova a cada geração mantendo mais ou menos o mesmo número de pessoas envolvidas?
Eu penso que os assuntos enfrentados pelos músicos de jazz e improvisação são múltiplos. Primeiro, eu acredito que a mídia mainstream especializada em jazz colocou a forma artística em um gueto musical elitista, ajudando a removê-la da percepção ou interesse da população em geral. Em segundo lugar, a maior parte dessa música é desafiadora para os músicos e, portanto, pro público. A maioria da população não é interessada de verdade em música, eles estão interessados em um papel de parede sonoro – algo bom pra ter por perto desde que não interrompa seu ambiente ou desafie suas expectativas. Estou interessado em encontrar uma maneira de quebrar a noção pré-concebida, desenvolvida pela mídia e por muitos músicos que é impossível que a música improvisada encontre um lugar real na sociedade contemporânea. A questão é encontrar fãs de música. Esse é o público que vai aos meus shows na América do Norte e na Europa, pessoas entre 20 e 40 anos que ouvem todo tipo de música: jazz, rock, reggae, funk, hip hop, música erudita, etc. e são essas pessoas que os músicos de improvisação precisam encontrar e tocar para, não para o fã elitista de jazz que já tem uma definição de como a arte pode ou não ser.
9. Quando você tem tempo, o que costuma ouvir?
Praticamente tudo em que consigo por minhas mãos. Eu tenho milhares de cds na minha coleção. Tem de tudo, de Albert Ayler a Hank Williams. Se estiver numa festa eu gosto de escutar funk antigo, reggae e rock (James Brown, Charles Wright, Stax, Funkadelic, Curtis Mayfield, Sly & the Family Stone, Lee Perry, King Tubby, Jackie Mitto, Studio One, The Ex, Shellac, Wire, Public Enemy, Fugazi); se eu estou fazendo uma audição é bem variado (Mississippi Fred Mc Dowell, Morton Feldman, Miles Davis, Duke Ellington, Iannis Xenakis, Peter Brotzmann, Evan Parker, Ornette Coleman, J.S. Bach, Albert Ayler, Anthony Braxton, música étnica do mundo todo, Charles Mingus…).
10. A pergunta inevitável. Você conhece alguma coisa de música brasileira? O que?
Meu conhecimento de música brasileira é muito limitado infelizmente. Mas alguns de meus discos favoritos de seu país são: o disco de João Gilberto que leva seu nome, "África Brasil" de Jorge Ben, "Domingo" de Gal Costa e Caetano Veloso, "Tropicália ou Panis Et Circensis".Por favor, faça algumas sugestões!
Entrevista por Rubens Akira, tradução por André Maleronka

Ken Vandermark, Mark Sanders, Luc Ex em São Paulo dia 10 de Dezembro

Nesta semana, temos oportunidade de prestigiar pela primeira vez no Brasil, um dos artístas mais expressivos da atualidade, que tem suas raízes no que se condicionou a chamar de jazz. Ken Vandermark vem do tradicional reduto onde este tipo de música avançou por campos mais ousados, que é a cidade de Chicago. Um dos seus maiores representantes era o grande saxofonista Fred Anderson e seu bar Velvet Lounge, que abrigou a mais ousada música de Chicago durante muitos anos.
Vandermark cresceu ouvindo o jazz tradicional e o mais ousado através de seu pai, que o levava às apresentações e sempre deixava o estéreo ligado em sua casa. Vandermark iniciou no trompete, mas logo decidiu pelo saxofone tenor e o disco Tenor de Joe McPhee teve importância crucial em sua decisão por fazer uma música mais livre. Vandermark desenvolve dezenas de projetos simultâneos, sendo que o Vandermark 5 é o principal deles. Faz o intercâmbio com os improvisadores da Europa constantemente, tendo constantes parceiros, músicos como Peter Brötzmann, Paal Nilssen-Love, Mats Gustafson, entre tantos. Nos últimos anos, adicionou o
saxofone barítono ao lado do tenor, clarinete em Bb e clarinete baixo. Vandermark tem uma característica única, que dialoga com a música popular contemporânea, como pode ser constatada nos seus projetos Spaceways Inc. e Powerhouse Sound, que exploram os territórios do rock, funk, hiphop e reggae.
Mark Sanders é um percussionista que tem papel essencial no cenário da improvisação livre e colaborou com os mais criativos imnprovisadores da Europa, como Evan Parker, John Butcher, entre tantos outros. Já esteve por aqui se apresentando com o pianista Veryan Weston e Luc Ex, ao lado do grande pioneiro na improvisação livre no Brasil, o percussionista Antonio Panda Gianfratti, que além de ser um artísta de expressão e criatividade, é um amigo especial.
Luc Ex fez parte de um dos mais expressivos grupos do underground, o holandês The Ex, que saiu de suas raízes do chamado anarco-punk para explorar o território livre da improvisação. Participou de projetos com Tom Cora, Phil Minton, Veryan Weston, etc.

Ken Vandermark, Mark Sanders, Luc Ex
- Centro Cultural São Paulo dia 10 de Dezembro às 19:00h

Rua Vergueiro, 1000 - Metrô Vergueiro - São Paulo, SP
Entrada franca (retirada de ingressos: duas horas antes da sessão)
- Sala Adoniran Barbosa (631 lugares)


Para saber mais sobre os músicos, acesse:

http://www.kenvandermark.com/

http://www.marksanders.me.uk/

http://www.lucex.nl/



terça-feira, novembro 30, 2010

Morte ao Jazz, Free Jazz, etc.!!!

Estamos encerrando a primeira década do século XXI e ainda se perde tempo com os rótulos e nichos de mercado. É um assunto abordado à exaustão pelos críticos de música, que em sua maioria, argumentam segundo suas fontes de pesquisa e estudo, segundo suas teorias e interpretações sobre teorias alheias. Muitos usam do argumento que sabem que isso não é importante, mas se faz necessário como forma didática ao público. Aí é que reside o erro. Perpetuam este conceito pobre de rotular com expressões que foram criadas em circunstâncias nem sempre bem esclarecidas. West Coast Jazz, por exemplo, o que isso quer dizer? Ah, o estilo de Jazz feito na costa oeste dos EUA, mais cool, diferente da costa leste, do ritmo duro e estressante das grandes cidades, de New York... Então o Ornette é o que então, se seu primeiro disco foi lançado por um dos principais selos "West Coast" que é a Contemporary Records, sob a indicação do baixista Red Mitchell? E o Herman Blount (Sun Ra), é o que, "Saturn style"?
Isso definitivamente já era, meu caro. O perfil de consumo musical mudou drasticamente nestes últimos 20 anos, já não se vai à uma loja e nem se encontram tais com os compartimentos de gravações separados por estes sub-gêneros e as pessoas não consomem música desta maneira.
Uma vez ou até mais de uma, perguntaram ao Max Roach se ele ouvia Jazz e ele disse que não, que só ouvia música. O Art Ensemble Of Chicago prefere chamar artisticamente seu trabalho de Great Black Music, Peter Brötzmann diz que sua música pode se chamar de Jazz, mas isso ele quer dizer que ele começou a tocar saxofone por conta de músicos como Ben Webster e Coleman Hawkins e a palavra Jazz diz a ele como um estilo de vida, não um rótulo musical, de gênero musical, estilo musical.
Há tantos elementos dentro da obra de muitos artístas que soa muito pobre, deficiente e equivocado rotular desta forma. Se uma pessoa escutasse o Sketches Of Spain, sem saber que era Miles Davis, provavelmente não diria que é um disco de Jazz, assim como diriam que Machine Gun de Brötzmann nem deveria ser considerado como música, devido a sua torrente sonora agressiva fora dos padrões populares de rítmo, harmonia e melodia. Definitivamente isto não funciona da melhor maneira, pelo contrário, cria vícios e limita o espectro de concepção de arte, de música de um indivíduo.
Amigos, não sou melhor do que nenhum ser humano da face da terra, mas como dizem, fiz minha lição de casa. Muita leitura de livros, artigos, entrevistas, audições, prática e estudo musical individual e coletiva. Então eu também fecho com os artístas mais experientes que ignoram a relevância destas denominações como Free Jazz, Cool Jazz, Hard Bop e etc. esta é minha opinião como um simples músico, apenas isso.
É esse tipo de conceito antropológico equivocado que gera conflitos, pré-conceitos, bairrismo, segmentarismo no mau sentido e até racismo e intolerância. Pode soar radical esta observação, mas é só observar os fatos, a história e se pode identificar estes sintomas.
Como Ornette é o assunto em voga em São Paulo recentemente ou a bola da vez, em sua singela simplicidade e sabedoria, ele proferiu: THIS IS OUR MUSIC...

sexta-feira, novembro 19, 2010

Todo mundo ama o Ornette

Neste último domingo do mês de Novembro o quarteto de Ornette Coleman se apresentou no Sesc Pinheiros num final de tarde quente e ensolarada.
Não pude deixar de observar a mudança ocorrida na rua Paes Leme que hoje abriga o Sesc. Antes, à vinte anos atrás, neste mesmo local e na mesma hora, a rua estaria tomada de outro público, que frequentava o extinto salão Asa Branca, onde rolavam os bailes. Os termos eram diferentes, os bailes, que eram funk, não tinham nada haver com o que se hoje fala do baile funk. Não tinha esse negócio de "baile black" e "manos" e o tal do funk carioca. Vários jovens eram chamados de "função", trajavam camisa polo (ou as famosas camisas de vôlei azul do time Pirelli com gola), calça jeans com a barra alargada com uma tira de couro (as famosas "pizzas") e o cabelo escovinha (corte com máquina bem baixinho e se fazia um vinco no lado esquerdo ou direito no topo, como se fosse uma divisão no cabelo). O pessoal não era tão chegado em rap, no máximo curtiam um Zapp, Kurtis Blow, Whodini. Se o público do Sesc estivesse alí naquele tempo, teriam saído correndo temendo um arrastão. Neste domingo, era um desfile de smartphones, tênis importados e predominância de pessoas "brancas", de classe média.
Bem, vamos ao Ornette. Confesso que não tenho mais aquele frenesi por conta de um show internacional, tanto que já estava tranquilo de não ver o Ornette porquê não tinha dinheiro para comprar o ingresso, que se esgotou rapidamente bem antes. Mas fui abençoado com um par de ingressos e fui com minha amada. Cheguei na hora marcada, afim de não ficar naquela "sala de estar" deste tipo de evento, onde todo mundo "ama" o Ornette. Sim, pois a maioria do público nem dava bola para o que o Ornette andou fazendo nestes últimos anos e se falavam alguma coisa, era de seu passado, do quarteto com Don Cherry, Charlie Hadden e Billy Higgins ou Ed Blackwell, de Lonely Woman ou Free Jazz. Eu não estava afim de ver o mito, o ícone e sim, apenas boa música (This Is Our Music)...
O auditório estava cheio e animado, parecia um público de show de rock, com gritos, palmas e assovios inflamados. Num momento, alguém gritou: "Ornette eterno!!!". Alguns ignoram seu valor artístico e apenas enxergam um velhinho negro americano do jazz e suprem suas carências de entretenimento.
Ornette executou várias composições conhecidas de sua carreira, mas de forma diferente do formato original, tornando-as vívidas, vibrantes, emocionantes, com o frescor de sua criação. Bem diferente de ver o Paul cantando Sg. Peppers. Não tinha este aspecto museológico, definitivamente. Ornette continua o mesmo agora com um saxofone alto de qualidade, pois aquele famoso de plástico branco, era por conta da falta de dinheiro para comprar um melhor. Não perdeu sua técnica pelo avanço e limitações físicas da idade, seu som soa tão bom quanto naqueles tempos. Denardo, seu filho, que estreou ao lado com 10 anos de idade na gravação Empty Foxhole e está também em exelente forma e técnica na bateria. Ouve um momento em que acabou a luz na região e eles tocaram Lonely Woman no escuro e sem amplificação, até voltar a energia elétrica. O público foi ao delírio. No final o quarteto ficou um bom tempo recebendo o público à beira do palco.
Mas o que mais me emocionou foi presenciar pai e filho partilhando música com o público, não importava se eram Ornette e Denardo Coleman.

terça-feira, novembro 16, 2010

Repressão ao artesanato de rua pela Prefeitura de São Paulo e a Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto

Esta situação tem se agravado nestes últimos tempos, quando a velha Feira das Pulgas ou Feira da Benedito Calixto, que ocupa o espaço público situado em uma praça entre as ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde aos sábados, com o intuito de vender antiguidades, artesanato, discos e livros usados, tem perdido uma parcela de público para a feira de rua que fica na calçada da Teodoro Sampaio, entre as ruas Lisboa e João Moura, composta por artesãos e fica logo na esquina da Pça benedito Calixto, funcionando como uma extensão independente neste pequeno circuito cultural do bairro de Pinheiros.
Comandada pela Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto, uma organização particular que não é composta por moradores das residências ao redor da praça, que tem violado direitos constituicionais e do espaço público. Esta associação tem agido de forma ilegal e se apropriado indevidamente do espaço público, como se fossem donos do local, como se a praça fosse uma propriedade deles. Sou testemunha deste abuso, pois à alguns anos atrás, executei uma apresentação de bateria solo na calçada em frente ao banco Bradesco, em frente à praça e fui questionado pela segurança particular da associação. Indignado com a atitude, fui buscar esclarecimento na sede da associação, que ocupa um imóvel no local. A responsável me tratou de forma truculenta e ainda me ameaçou em chamar a polícia se eu voltasse a tocar meu instrumento no local. Isso fere o artigo 5, inciso IX - É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
A feira da Benedito comandada por esta associação (que inclusive está sendo investigada pela Justiça por irregularidades) tem perdido público pelo desinteresse de muitos pela falta de inovação dos expositores, da elevação de preços dos produtos, perdendo a característica inicial da feira, como os sebos da região, que vendem livros com preços similares das livrarias?!. O aumento deste custo é provavelmente proveniente da taxa abusiva que a associação cobra dos expositores que estão sujeitos a serem expulsos por coação física e é repassado ao consumidor e também pela ganância de alguns expositores, visando o poder aquisitivo que na maioria é composta pela classe média da região, que é maior em relação à maioria da população paulistana (proletariado).
Então muitos tem procurado a feirinha da Teodoro, que caminha independente da Benedito, mas é extremamente próxima a ela, que pratica preços justos e acessíveis, possui bom atendimento por parte dos artesãos e consequentemente tem ganhado a aprovação dos frequentadores da região.
Em contrapartida, a Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto e alguns expositores, tem se comportado como empresas de capitalismo selvagem, que usam dos meios mais abomináveis para eliminar a livre e saudável concorrência, tentando impor uma ditadura, eliminando a oferta e direcionando a procura pelos seus produtos, impondo seus preços e sua "lei". Ora, isso se chama Cartel, Máfia ou coisa parecida. Usando de suas influências, tem acionado a Guarda Civil Metropolitana, a Polícia Militar e fiscais da Sub-Prefeitura para oprimir e confiscar o material dos artesãos, como se eles fossem contrabandistas e membros da pirataria de produtos, que é um notório problema da região central da rua 25 de Março.
Se você tiver interesse nesta questão de cidadania, procure o blog do Wanderlei, habilidoso artesão e cidadão articulado, que pode lhe esclarecer com mais precisão esta vergonhosa situação. Exerça sua cidadania e apoie a liberdade de expressão!

http://wanderart.blogspot.com/

segunda-feira, novembro 15, 2010

Hakim Bey - T.A.Z. (1994)

Hakim Bey: voice(readings)
Wu Man: biwa(pipa)
Buckethead: guitar
Nicky Skopelitis: guitar
Bill Laswell: bass, sampler, technician(treatments), producer, arranger

Hakim Bey, é o pseudônimo de Peter Lamborn Wilson que nasceu em Maryland nas proximidades de Baltimore no ano de 1945. Historiador, escritor e poeta, pesquisador do Sufismo bem como da organização social dos Piratas do século XVII, teórico libertário cujos escritos causaram grande impacto no movimento anarquista das últimas décadas do século XX e início do século XXI.
A idéia sobre uma Zona Autônoma Temporária é de como um grupo, um bando, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizadas podem maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Em linhas gerais é uma organização para o desenvolvimento de atividades comuns, sem controle de hierarquias opressivas. Para Hakim Bey, uma TAZ é uma aglutinação de pessoas que se encontra em tamanha complexidade que se pode dizer que toda uma sociedade está dentro da TAZ. As idéias são semelhantes as apresentadas pelo grupo teórico Bolo Bolo e pelo autor Ivan Illich. Embora Hakim Bey escreva um livro inteiro sobre TAZ, não é seu intuito definir e fixar formas, ou padrões de como seria uma destas zonas. O máximo que faz é circundar o assunto, lançando algumas explicações gerais. O que chamamos de TAZ desenvolve-se como um levante, algo excepcional na história , que, apesar de muitos classificarem como uma revolução que fracassou, eleva o grau de intensidade da vida e da consciência. Libertar-se, revolucionar pode partir de um indivíduo, ou de um bando. E é isso que poderiamos colocar como um princípio e possível objetivo da TAZ: liberdade independente e autônoma. Por tais características, a TAZ se assemelha muito ao comunalismo intencional e ao comunalismo libertário, chamados por Kenneth Rexroth, simplesmente, de comunalismo.
O livro T.A.Z. (Zona Autônoma Temporária) foi escrito em 1985 foi traduzido para vários idiomas Nele, a partir de estudos históricos sobre as utopias piratas, descreve a criação e propagação de espaços autônomos temporários como tática de resistência e esvaziamento do poder.
Clique na imagem para acessar o arquivo.

"The T.A.Z. is like an uprising which does not engage directly with the state, a guerrilla operation which liberates an area (of land, of time, of imagination) and then dissolves itself, to re-form elsewhere/else when, before the state can crush it." - Hakim Bey.

sexta-feira, novembro 12, 2010

A morte do Hardcore Punk

Estamos no final da primeira década do séc.XXI e mais um óbito de uma cultura é presenciado: A morte do Hardcore. Não? Bem, se você faz parte dos envolvidos neste movimento e estilo cultural, político e musical, que ainda frequenta apresentações (gigs), lê ou publíca zines, tem uma banda ou coisa semelhante, sugiro que faça um panorama reflexivo, sem paixões sobre o Hardcore Punk hoje em dia. Ah, o Do It Yourself Never Dies... Mas isso não é uma invenção do HC e sim de culturas e movimentos que já passaram por este mundo. Mas você tem toda a liberdade de discordar (dischord) e dizer que a chama ainda queima (flame still burns). Então não perca tempo lendo este post. Este não é um blog segmentado.
O Hardcore Punk viveu sua "época de ouro" nos anos 80 e uma parte dos 90 com a proliferação de bandas, zines, programas de rádio, midia em geral através do mundo. Aqui no Brasil, as coisas sempre chegaram com um certo atraso e distorção de valores, que hoje em dia não acontece como antes, devido à era digital e a world wide web, que permite o acesso direto à fonte. Eu posso falar sobre boa parte do que ocorreu aqui em São Paulo, pois participei desta cultura, portanto não sou um pesquisador de laboratório que nunca foi à campo, teórico ou alguém que só leu algo na net ou outro veículo de informação. Mas não estou aqui para fazer uma autobiografia e nem uma biografia sobre o Hardcore Punk paulistano neste reduzído espaço digital.
A intenção aqui é avaliar o que existe e resiste hoje em dia. Existem algumas casas noturnas que abrigam apresentações de bandas estrangeiras periodicamente, há alguns poucos espaços que são direcionados ao HC, algumas lojas de discos, alguns zines, muitos blogs e sites, alguns festivais, etc. Mas o que era concebido como cenário HC já não existe mais, as coisas mudaram, ou melhor, sofreram uma mutação e não uma evolução, infelizmente. O HC teve o mesmo fim que o movimento Flower Power dos anos 60, que ainda deixa resquícios ou sequelas de seu impacto, mas a sua força e autonomia já se foi, sinto muito.
Os remanescentes praguejam contra produtos como NX Zero, CPM 22, etc, mas isso nunca foi novidade em movimento musical que já existiu. Sempre a indústria, os empresários ou pessoas que são carentes de pertencerem à um grupo e portar algum rótulo se infiltraram em qualquer que seja a denominação coletiva musical e cultural.
E de pensar que o termo emocore (emotional hardcore) veio de grupos de Boston como Rites Of Spring, Embrace, etc, iria desembocar em coisas como Fresno e afins, realmente é trágico (como diria o sr. Omar, do seriado "Todo Mundo Odeia o Chris").
Hoje já vemos jovens na faixa dos 30 anos relembrando das gigs noturnas na metrópole paulistana, das saudosas lojas de discos na Galeria do Rock, que eram o ponto de encontro deste segmento. Alguns se assemelham aos punks quarentões que vivenciaram o início do Punk nos anos 80 e lamentam seu declínio entre goles de cerveja ou outro goró mais forte. Decline of the western civilization... Mas alguém ainda grita: "This is not the end!" (citação de uma música do Agent Orange).
O Hardcore se auto destruiu, deu o famoso tiro no próprio pé, seu radicalismo sufocou a sí mesmo. Nem os diamantes são eternos, tudo passa na história da humanidade. Mas não precisava ser assim, uma morte sem dignidade, uma morte agonizante e desapercebida, como morre um indigente debaixo de um viaduto. As coisas poderiam ter evoluído, se aprimorado e se adaptando aos tempos contemporâneos, assim como ocorre felizmente com o chamado free jazz na Europa e EUA. Nestes continentes o Hardcore Punk ainda encontra um espaço com dignidade, mesmo que bem mais reduzido, por manter o bom senso, sem levar em conta que preservou certas colunas de sustentação básicas para existirem, sem distorcer de forma bizarra sua criação.
Bem, alguns aqui até que estão tentando fazer alguma coisa, outros fazendo documentários (ou seriam obituários?) e não posso dizer com exatidão os seus fins e suas reais intenções.
Aquele côro do Youth Of Today que dizia: Keep it up!, soa tão distante agora...
 
 
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